Jornalista plástico


Carta à minha psicóloga - um complemento da última sessão

Quando causa e consequência parecem se misturar, a inércia consome tanto o tempo que chega a parecer que ele mesmo, o tempo, permanece estático. E confortável.


Deixar o corpo flutuar no produto do nada a fazer acaba permitindo que qualquer mínima força externa conduza a ação, a reação; a razão. É aí que o trabalho domina a alma, pois quem manda é a tarefa, a pendência, o chefe, o cliente, a gravata, o teclado do computador, o café aguado, a reunião sobre a reunião sobre a reunião.


O fluxo das marés também leva à indiferença quanto aos efeitos. Parece algo como uma espécie de sistema de relacionamentos por osmose. Passo o dia com quem gostaria de estar? Não sei se existe o termo passivo-depressivo. 


Não sei de mais nada. Não sei se sou só um autosabotador ou um mero idiota. Não sei se estou vivendo um complexo e irreparável bloqueio artístico ou virei um preguiçoso que só assiste TV. Não sei se os resultados das minhas lutas foram mais importantes que os resultados. Coragem de sentir medo ou medo de sentir coragem. O carro parou e não sinto mais vontade de latir. Blá-blá-blá. Vontade; falta vontade.


O fato é que as pessoas me entediam. O inferno são os tolos. 


Voltando à e-nércia. Ora, com menos ação, menos possibilidades de interação obrigatória com quem não me causa interesse. Estático, ninguém me desconforta. Ninguém me desconstrói. DesTróia.

 
“Você está se ouvindo?” Não.


Olha, na casa dos 30 dá pra afirmar que é possível conhecer em maior ou menor grau milhares de pessoas. E nessa terceira década, fica clara a recorrência da mesma pessoa em personalidades diferentes. Ou melhor, dá para reconhecer a mesma personalidade em muitas pessoas diferentes. E só deve existir meia dúzia de personalidades, pois sempre alguém lembra alguém, que lembra alguém que faz com que se esqueça de outrem. Ah, e tem a recorrência física, que muitas vezes se encaixa na personalidade e tudo mais. O fato, Lígia, é que você se parece com a minha irmã, em diversos aspectos. Não faço ideia sobre a relevância da informação. Mas não a disse até agora pela preferência pelo estático, da vontade de não tocar em pontos incômodos? 


Que seja. O trabalho preenche tanto, que a subjetividade – tão importante para mim, para a arte, para tudo – foi encostada no limbo que abriga uma porrada de sonhos sonhados lá atrás. Sei lá.


Não devo nada à deriva nem à âncora. Do letárgico ao eufórico em segundos, desacelero o que sou para alcançar a velocidade da luz do estático. Não sei se piscaria se meus olhos não secassem. Mas eles doem o dia todo, como as represas.


Passo o dia longe, no sofá, so far, se for possível. Carrego uma bigorna no peito e minha respiração desce melhor com a fumaça do cigarro. Quero ficar sozinho quero companhia quero ficar sozinho acompanhado quero companhia para ficar sozinho. Sinto náusea às vezes, de ansiedade. Sinto sono enquanto durmo. Desejo acordar quando estou de pé. Estático é melhor. Dói menos, ainda que de mais. Fico sem ação mesmo, enquanto não há conforto, enquanto me falta algum legítimo interesse.

O relógio de parede da minha cozinha está há seis meses parado. Meia noite e trinta e seis.

 

 



Escrito por Robinson Machado às 23h40
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Dominicais

Onze horas e uns poucos minutos. Universitário se apaixona por fotografia e tira o dia para registrar o fluxo e o estático da Avenida Paulista, como se ela nunca existisse. Exercita uma espécie de produção pública, fingindo não ser notado. Exibe expressões e movimentos de introspecção que certamente não costuma executar. Efeito da extensão inconsciente do corpo pela máquina.

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Um cara de quarenta força uma ereção matinal como forma de declarar o amor que não encontra mais expressão na rotina daquela Vida Madalena. Randomicamente, vasculha a memória com o máximo de imagens eróticas que consegue se lembrar, mas a inevitável frustração o arrebata quando o rosto de sua mãe eletrocuta alguns neurônios.

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Colegial da zona norte paulistana escreve mais uma página do livro de contos sobre o amargo do mundo, os problemas da contemporaneidade e o fora do namorado que levou na última semana. Projeta como leitor o vampiro do último filme em cartaz. De bruços, força o quadril contra o colchão e ensaia esconder a mão sob o corpo, mas a porta é aberta para escoar a ordem que a obrigava a organizar o quarto.

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Senhora observa os tetos do corredor do hospital na zona sul e sente falta da filha que não chegou a tempo de desejar boa sorte na cirurgia. Ainda sem sedativos, se esforça para entender o porquê de não conseguir se lembrar do rosto de nenhum ente querido, encontrando alguma explicação no acalanto imaginário de Tarcísio Meira.

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Puxou a bolsa do ombro da mulher. Quando parou de correr na Haddock Lobo, percebeu que a pulsação disparada já não era só de medo. Na carteira, uns trocados. A foto de um garoto branco, cartões de senha e outro de desconto na drogaria. Guarda-chuva, maquiagem e uma blusa de lã fina. Nem celular tinha. Colocou no rosto a roupa embolada. Desejou ter mãe.

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Mooca. A mãe preparava o almoço. O pai estava lixando o portão. O filho ainda dormia. A filha estava ao telefone. O tio chegou com os primos pequenos. A tia foi para a cozinha. O tio foi para o portão com cervejas. Os primos acordam o filho. O almoço ficou pronto. A mão e a tia puseram mesa. O filho comeria depois. Os primos tentaram ajudar a lixar o portão. Os tios se puseram à mesa. A filha estava ao telefone.

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Três segundos de uma estridência atípica para o atrito entre o pneu e o asfalto. O estrondo seco e o tilintar da chuva de vidro ao chão. Olhos abertos encontram a textura da fumaça. Um grito ao longe, outras freadas. A perna. A perna esmagada.  Não ouvia, sim, ouvia. Não ouvia mais. O braço. O braço esmagado. Não consegue respirar. Nada doía mais que o fundo dos olhos – aquele pranto que não vem nem volta. A esposa inconsciente no banco ao lado. O pescoço contundido não permitia ver o banco de trás, onde estavam os filhos. Calados.  

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Saiu com faca na mão e cachaça na cabeça. Vozes femininas de dentro da casa imploravam paz, com ódio. Vozes da Brazilândia. Através da rua, entre meios fios e sem meias palavras, investiu contra o homem, que não pôde conter o golpe com o taco de sinuca. Sem camisa, deu pra ver bem o corte entre as costelas. A gente do bar segurou o assassino, com tapas e pontapés, e tomaram a arma. As vozes femininas explicaram que o morto era estuprador. Cessaram os tapas e pontapés no agressor. Lincharam o cadáver.

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O rapaz saiu da cama e se deitou no sofá. De bruços, juntou as palmas e as encaixou entre as pernas dobradas. Estalou os dedos do pé, bocejou ao mesmo tempo em que dizia alguma palavra qualquer, imprimindo àquela espécie de expressão-reação um tom cômico e, ao mesmo tempo, intrigante, já que indecifrável. Da posição em diante, as pálpebras se abriam ocasionalmente, procurando alguma coisa que se movesse na cena estática. Lá fora, uma equipe da Eletropaulo trocava os fios da Avenida Brigadeiro Luis Antônio.



Escrito por Robinson Machado às 14h04
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Mulher desligada



Escrito por Robinson Machado às 19h12
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O cinema e eu, há uns 5 anos

XXXXXX@hotmail.com says:

lembrei muito de vc ontem. mas de um jeio gostoso

XXXXXX@hotmail.com says:

lembrei do quanto vc me incetivou a gostar e a entender o cinema. lembrei das nossas

discussões, das nossas críticas aos filmes, das análises, dos filmes bons e ruins que vimos

juntos

XXXXXX@hotmail.com says:

nosso programa preferido o cinema. todo fim de semana a gente estava lá. uma, dua, três

vezes. e ainda chegávamos na minha casa p/ mais uma sessão. vc reclamando que queria

ver mais um filme e eu querendo só te beijar. vc preferindo o filme ao motel.... e eu me

divertindo com essa sua paixão, por mim e pelo cinema. aprendi muito com vc, Ró. Obrigada

XXXXXX@hotmail.com says:

não deveria ter dito isso. não faz sentido. foi só um desabafo. é isso que dá vc me deixar aqui

sozinha falando...

XXXXXX@hotmail.com says:

cadê vc, hein?



Escrito por Robinson Machado às 12h03
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TwitPatrulha

No ano passado, entrevistei um dos maiores especialistas brasileiros em cobras para uma revista que fala sobre fauna silvestre. Ele trabalhava no Insituto Butantan, que sofreu um incêndio - o fogo destruiu um laboratório de pesquisa que continha um acervo de animais mortos. Nada que vá afetar tanto o bom trabalho da instituição.

Dá uma lida no post abaixo, principalmente se você condenou minha brincadeira com o tema no Twitter. Assim você pode comentar o assunto com mais propriedade ;)



Escrito por Robinson Machado às 09h57
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Especialista

Cobra no que faz

Robinson Machado

O biólogo e pesquisador Giuseppe Puorto, 55, diretor do Museu Biológico do Instituto Butantan, em São Paulo, é uma das maiores conhecedores de cobras no país. Este é o resultado de 38 anos de estudo e contato direto com o fascinante animal no local que é hoje a maior referência da América Latina em pesquisa, difusão cultural e produção de soros e medicamentos a partir de venenos.

Puorto é o criador do primeiro atlas de anatomia de diversas cobras brasileiras, como a jibóia, e que seria responsável por descrever três novos espécimes na fauna brasileira. Na direção do Museu do Butantan, que busca levar educação ambiental à população, Puorto se orgulha de ter feito parte de um grupo que salvou milhares de pessoas ao extrair toxinas de serpentes para fabricação de medicamentos.

Ele descobriu cedo sua aptidão para medicina e biologia e aos 17 anos, como estagiário, extraia veneno de cobras para estudo no Butantan. Pouco antes disso, aos 16, acumulou experiência em um laboratório que estudava doenças em plantas. Lá ele aprendeu o que chama de postura de laboratório: como ser organizado, como lidar com diversos tipos de materiais e manter a seriedade. Ao deixar as plantas e procurar trabalho no Instituto Butantan, encontrou uma vaga na seção de cobras. Ele se lembra bem daquele dia: 28 de janeiro de 1971. “Quando cheguei aqui e vi as cobras, fiquei arrepiado... Gostar de animais é uma coisa, gostar de cobras é outra”, conta.

 

Revista XX: A cobra parece ter outro conceito na percepção das pessoas...

Giuseppe Puorto: Hoje sempre começo minhas palestras falando da sua questão mística. As pessoas não olham para a cobra como um bicho. Olham para a cobra como uma coisa do mal. Cheguei com muito temor ao Butantan. Aquela seção tinha na época mais de mil cobras vivas e uma estrutura que não é igual de hoje, era muito precária.

XX: Mais perigosa que hoje...

GP: Precária e perigosa, mas gostei do desafio. Em pouco tempo, me achei um entendido em cobras. Aí uma cobra mordeu meu dedo. Não gostei nada da experiência...

XX: Você decidiu ser biólogo depois de começar a trabalhar com animais?

GP: Eu queria fazer medicina, mas o lado financeiro não deixou. Resolvi isso trabalhando, mas trabalhei tanto que não consegui estudar. Aí medicina não deu. Mas fiz biologia, fiquei feliz da vida. Fiz em uma faculdade particular, bem diferente das escolas particulares de hoje dia, que são uma porcaria – com todo respeito. Posso falar isso de boca cheia, pois faço parte do conselho regional de biologia e a gente sabe em que nível está as escolas.

XX: As faculdades de biologia estão ruins assim?

GP: Estão terríveis. Trabalham com o currículo mínimo... Mas fiz Mogi na época, que era uma boa escola, mas não era uma USP. No entanto, depende da gente quando estuda.

XX: Como era sua rotina nessa época?

GP: Durante quatro anos, vinha para o Butantan de tarde, depois da faculdade de manhã e o cursinho de noite. Nessa época fui mordido de novo por uma cobra; foi em 74. Fiquei muito mal, tive alergia, um monte de coisas, quase ‘empacotei’. Envenenamento é terrível.  Mudei totalmente de postura. Passei a entender e a perceber que eu não sabia nada sobre as cobras e que tinha que respeitar aquele bicho. Deixei aquela fase adolescente de achar que a gente sabe tudo e foi muito bom.

XX: Como se tornou pesquisador?

GP: Em 83, abriu concurso para biologista. Passei em 1º lugar. Em 84 abriu vaga para pesquisador científico. Diferente do biologista, o pesquisador tem plano de carreira, dividido em 6 níveis – estou no sexto desde 2006. Continuei no Butantan, dei aula de biologia e ciências em um colégio de Estado por quatro anos. Fui para o laboratório de répteis do Instituto. Lá passei a entender a cobra, conhecer o bicho. Fiquei até 98. Nesse ano fui convidado para dirigir o museu e aqui estou há 10 anos.

XX: Você superou a fase que achava que conhecia a cobra para notar que demorou anos para isso acontecer de verdade.

GP: Sim. E aprendi a olhar para as cobras de outro modo: de um modo carinhoso, de um modo respeitoso, como entidade biológica, como ser vivo...

XX: E lá no começo você tinha só medo...

GP: Quando a gente começa a entender esse bicho, vemos que há muita coisa interessante. Quando se passa a entender alguma coisa, você compreende porque ela é assim. Entendo hoje a cobra e compreendo porque ela pica os outros: porque a gente vai incomodar.

XX: Quais seus trabalhos de maior destaque?

GP: Fiz um trabalho inédito: dois atlas de anatomia de serpentes. O mercado brasileiro não tinha algo parecido

XX: Existia fora?

GP: Existia fora algo simples, mas nada sobre cobras brasileiras. O objetivo desses atlas era subsidiar conhecimento para todos que precisavam entender desse bicho por dentro e por fora. Até hoje ele é referência. O veterinário usa para saber onde está os órgãos e assim tratar o animal, por exemplo.

XX: O atlas é específico por animal?

GP: Sim, pois há muitas especificidades. Comecei com este da jibóia, depois fiz da jararaca. Na época que escrevi, havia poucos especialistas em serpentes no Brasil. No Rio Grande do Sul tinha um, em São Paulo tinha alguns, no norte tinha dois... e só. Começou a aparecer um monte de estudantes interessados. Outro fator que aumentou o interesse pelas cobras foi que elas se tornaram pet, animal de criação.

XX: Isso é um problema?

GP: Isso é um problema quando ele é mal feito. O fato de você ter uma cobra de estimação é bom quando quem cuida, cuida bem. Mas quando você tem muita gente fazendo a mesma coisa, sempre tem quem não faça direito. Por exemplo, alguém compra uma cobra pequena maravilhosa, mas não considera que ela cresce. Tem gente que não tem cabeça e acaba soltando onde não deve. Outro problema é que esse modismo começou fora do país. Aí começou um trânsito de cobras internacionais. Um tempo atrás um bombeiro capturou uma píton atravessando a avenida Pompéia... O problema de um bicho estrangeiro solto aqui é que interfere no equilíbrio da fauna. Alguns animais passam a não ter predadores naturais, por exemplo. Se você introduz uma espécie que não tem aqui, pode vir doenças. Parte da população deixa de ter somente cachorro, gato e passarinho e começam a adotar cobras, aranhas, escorpiões, iguanas... Com isso você estimula violentamente o tráfico de animais. Hoje o tráfico é a terceira grande fonte de renda no mundo. Perde somente para drogas e armas, segundo a polícia federal e o IBAMA.

XX: Como funciona hoje o Instituto Butantan e o que tem feito de novo?

GP: O Butantan é dividido em três grandes áreas. Há uma grande área de pesquisa, que estuda os animais e os seus venenos. Há a área que produz soros e vacinas. A pesquisa alimenta a produção. A produção, por sua vez, tem a sua pesquisa, que atua na área biotecnológica, para desenvolver técnicas de produção de vacinas. O outro braço do Butantan é a difusão cultural. Toda a informação gerada aqui dentro sai decodificada para o povo, por meio dos museus. O que está acontecendo de importante hoje na área de pesquisa é o estudo de venenos para se criar novos medicamentos, chamado de bioprospecção.

XX: Como funciona a bioprospecção?

GP: O veneno extraído de uma cobra, ou aranha ou lagarta, do mesmo jeito que ele pode matar uma pessoa, quando usado in natura, se ele seus componentes são pesquisados, que são chamados de fração, a fração pode ser usada em benefício do homem, pois pode ter outro efeito. Por exemplo, na década de 50, foi descoberto que no veneno da jararaca, uma fração do veneno tinha substâncias para baixar a pressão. Hoje, você encontra na farmácia o ‘captopril’, que é um dos medicamentos mais vendidos no mundo para tratar pessoas que tem hipertensão.

XX: Foi descoberto no Butantan?

GP: Sim, mas foi patenteado nos Estados Unidos. Uma colega nossa descobriu também aqui, no veneno da cascavel, uma fração que é 10 vezes mais potente que a morfina, que não causa dependência.

XX: Quando isso aconteceu? 

GP: Há poucos anos, mas isso está em andamento. Depois da descoberta, entra para o processo de patente. Há estudos também de frações do veneno da cascavel com ação em células cancerosas.

XX: Quantas pesquisas estão em aberto hoje?

GP: Cerca de 20 grandes pesquisas.

XX: E na área de produção, o que é destaque?

GP: Há um tempo, circulava na imprensa notícias sobre a gripe aviária. O Butantan gerou um estoque de vacinas contra essa gripe. O instituto é hoje referência mundial para algumas epidemias.

XX: Soube que ele foi uma das instituições escolhidas no mundo para produção de vacinas contra a gripe suína.

GP: Exatamente. Outro exemplo: antes a vacina contra a influenza, a gripe comum, vinha da França. Hoje nós temos um prédio que a produção de vacinas será implantada aqui dentro. Outra coisa interessante que está saindo do Butantan são os hemoderivados, produtos do sangue da placenta. Há ainda uma linha de pesquisa descobriu aqui que há uma substância no pulmão do porco que pode ser usada em bebês que nascem com um problema respiratório. O Butantan chegou a ponto que tudo o que é criado aqui tem uma aceitação fora muito boa desde a época de Vital Brasil, que já promovia naquela época a educação ambiental.

XX: Que dá a base do terceiro braço do Butantan.

GP: Exatamente. O museu que dirijo hoje vem do embrião do Vital Brasil, que reuniu cobras para mostrar quais eram venenosas, quais não eram... Quando nem se falava disso, ele já fazia educação ambiental. A partir disso, há uma série de feitos científicos no Butantan. Pelo menos 30 cobras foram descritas pela primeira vez aqui, três fui eu que fiz.

XX: Quantas pessoas passam pelo museu por ano?

GP: Cerca de 200 mil por ano. O Zoológico de São Paulo tem uma área monstruosa e recebe mais de 1 milhão de pessoas por ano. O museu do Butantan, se você entrar nele e andar sem parar, você gasta um minuto.

XX: Comparativamente...

GP: O Butantan está muito bem.

XX: Em educação ambiental, o que está difícil das pessoas entenderem?

GP: Em educação ambiental, não adianta a gente fazer somente aqui dentro. Ela tem que começar em casa e na escola. A criança precisa ter uma base desde o início.

 



Escrito por Robinson Machado às 09h55
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Transfigurado

Amor bom é amor morto. A tentativa de abandonar a poesia não abrandou o ferro de construção que atravessa o peito para desabar uns versos. Porra, que jorro enfim vai findar o que é triste? Matar o tempo sem voar deixa a poética chegar bem perto, cravar na carne a unha, aquela única que afia. E cá estou, lógico, sozinho em frustração insone; com alguma fome de ser amado. Uma semana de um bilhão de horas. Uma vontade e um milhão de dúvidas.

Peço por um olhar que me atravesse. Peço por um sorriso que me arrebate. Peço por uma paz que rompa o meu silêncio. O pior é saber que há, mas não se pode tocar. Tão perto, mas tão na estante. Tão longe. Logo ali.   



Escrito por Robinson Machado às 08h13
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Entrevista: sindicalismo nas artes plásticas

Petrobrás mandou bem. Como agora é tendência, publico abaixo entrevista sobre artes plásticas, sindicatos para as artes e afins. Dessa vez, sou quem responde, não quem pergunta.

Por que você não faz parte de nenhum sindicato ou associação?

 

Não integro entidade alguma relacionada à arte por que não fazia idéia de quem são ou como poderiam ser úteis ao meu trabalho. Mesmo participando de editais públicos de fomento cultural e exposições diversas, nunca fui abordado por uma instituição. Claro que já procurei saber alguma coisa pela Internet, mas sindicatos que tem a proposta de representar a classe dos artistas plásticos não poderiam manter um site de visual tão ruim e com atualizações com atrasos de dois anos. Quando um sindicato ou associação é relevante, seja qual área for, eles costumam buscar a adesão de sua classe, nas escolas, nas exposições...

 

Pretende fazer parte de algum no futuro?

 

Não planejo fazer parte de qualquer instituição que deixe de promover o debate para tomar suas decisões em nome de um coletivo. Considero a arte uma atividade tão subjetiva que não acredito em uma regulamentação profissional de classe criada com alguma base democrática. Esta discussão já começa pelas questões sobre o que é a arte e quem é considerado artista. Não quero me vincular a uma instituição que me considere artista por produzir e expor quadros ou esculturas, mas não integre um intervencionista urbano que faz coisas relevantes.

 

Acha que os esforços feitos por essas entidades são válidos na defesa dos direitos dos artistas?

 

Há diversas entidades que defendem muito bem os direitos de classes como a dos músicos e dos atores. No caso das artes plásticas, artes visuais e afins, tenho dúvidas se há realmente qualquer esforço. Estive recentemente em um debate promovido pela Folha de S.Paulo com o Ministro da Cultura sobre Lei Rouanet e não notei qualquer participação de um sindicato de artes plásticas. Isso seria o mínimo do esforço. E quando digo esforço, não é a produção de manifestos ou dar dicas de cursos e concursos: é a defesa, por exemplo, de que haja uma mudança nos projetos públicos de incentivo à cultura para viabilizar a profissão do artista plástico. Enquanto um filme comercial ruim consegue milhões de reais em incentivo viabilizado pelo governo, uma mostra de artes visuais mal consegue financiamento para pagar seus custos.

 

Sendo esta uma profissão não regulamentada, que não dá aos artistas direitos trabalhistas como aposentadoria, acha que a melhor maneira de conquistar tais direitos é através de organizações sindicais?

 

Definitivamente, organizações sindicais não são capazes de alterar a difícil realidade do artista plástico no Brasil. O que aconteceria se os artistas plásticos entrassem em greve? Nada, seria uma grande piada. O movimento sindical foi vital em diversos contextos históricos no mundo todo para defender os direitos de muita gente. Entendo que um sindicato é uma ferramenta popular, um recurso legítimo usado pelo povo. Trabalhadores explorados precisaram se reunir para reivindicar direitos: organizaram-se para promover melhores condições e distribuição de rende mais justa. Se um sindicato nasceu como resultado de uma luta de classes, não há sentido algum existir uma instituição dessas para a classe dos artistas plásticos por uma simples razão – os artistas plásticos sempre estiveram intimamente atrelados à elite dominante, seja o clero de antigamente ou o meio empresarial de hoje. Nesse sentido, culturalmente o artista plástico faz pose de dominador, enquanto na verdade é o pior dos dominados, o servil. O artista então dispensa carteira assinada e aposentadoria para não incomodar quem pode comprar sua obra, feita para a própria elite, potencialmente criando um círculo vicioso de produção de lixo comercial.  

 

Acha que regulametar a profissão seria complicado pelo fato de ter de classificar quem é artista ou não?

 

Infelizmente, quem determina o que é arte e quem são os artistas é a elite, que hoje é representada pela imprensa, pelas galerias e pelo conceito conhecido como ‘formadores de opinião’, ou seja, uma balela criada pelo meio empresarial para justificar seus preconceitos quanto a públicos consumidores. Esta lógica de mercado é restritiva e deixa de fora um enorme contingente de linguagens e manifestações artísticas importantes. Este seria o foco de uma classificação de mercado, que daria base a uma regulamentação alinhada com um programa de incentivo público-privado. E não dá para esquecer que também é preciso separar o produtor de artesanato, o desenhista na praça pública ou a dona de casa que gosta de pintar telas de flores e vender por aí. Uma regulamentação específica e benéfica para eles também é necessária.

 

Acha que pelo grupo artístico ser tão heterogêneo, torna mais difícil se organizarem em busca de seus direitos?

 

Se o artista plástico for considerado o indivíduo que busca se expressar de maneira inovadora por meio de recursos artísticos para representar ou debater sua realidade contemporânea, uma mobilização de classe poderia ser facilmente estabelecida. O que é heterogêneo é a linguagem, que pode ser a pintura, a manipulação digital, a fotografia, o grafite, a intervenção urbana, a performance, entre muitas outras. Acredito que os artistas plásticos precisam primeiramente refletir sobre o cenário de consagração artística. Depois, precisam promover a democratização de conceitos ligados à arte de maneira mais efetiva, por meio de educação.

 



Escrito por Robinson Machado às 09h30
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Poptic

O Poptic de Robinson Machado

O artista plástico paulistano apresenta 18 telas produzidas e impressas com tecnologia digital

Com vernissage no dia 1º de junho, segunda-feira, Robinson Machado apresenta quadros inéditos da série “Poptic” na Piola Jardins, que fica na Alameda Lorena 1765, a partir das 19 horas. A exposição fica em cartaz na casa até 12 de julho, integrando o Art Inside Piola, projeto de mostras artísticas que acontece em diversas unidades da rede internacional.

Em “Introdução ao Poptic” Robinson mostra o início de suas pesquisas para fusão das linguagens da “Pop Art” e da “Optical Art”, unindo fotografia e manipulação digital. As telas impressas em acrílico dispõem de uma tecnologia de sobreposição de imagens e alteram de acordo com a posição do expectador. Nas obras, a figura humana aparece aprisionada por um turbilhão de texturas e cores em movimento, um convite do artista para a reflexão sobre o excesso de informações e consumo que bombardeia a sociedade contemporânea. 

“Procurei criar uma representação onde o indivíduo aparece como responsável pelos problemas que critica. Apresento o caos da atualidade como reação à ação das pessoas”, diz Machado.  A crítica do artista ganha um viés lúdico na exposição: a contemplação de Poptic não é estática – para capturar todas as possibilidades de imagem, o observador precisa se movimentar diante de cada obra. A saída para quem observa é “dançar” em frente às telas.

Parte das obras Poptic de Robinson Machado foram expostas na “MECA”, Mostra Ecana de Cultura e Arte da Universidade de São Paulo (USP) e no Museu Brasileiro de Escultura (MuBE). A mesma série foi contemplada por um edital da Secretaria de Estado de Cultura do Mato Grosso e, ainda em julho, integra exposição individual do artista em Cuiabá, na Galeria de Artes Visuais da Secretaria de Estado da Cultura, como parte do Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural 2009.

Sobre Robinson Machado: Paulistano de 28 anos, é artista plástico e jornalista. Pintura a óleo, arte digital e fotografia são linguagens que o "jornalista plástico" vem explorando em projetos recentes que abordam os conflitos das relações humanas contemporâneas, nas esferas políticas e comportamentais. Esta temática é freqüente em suas criações literárias, que vão de poesias a crônicas e contos, e arte visual.  

Como jornalista, colabora como freelancer com publicações especializadas, produzindo fotografias e reportagens, e atua como assessor de comunicação. Em 2008 iniciou estudos para a criação da linguagem que batizou como “Poptic”, uma fusão das linguagens da “Pop Art” e “Op’Art”, parte da série foi recentemente apresentada em mostras da USP (exposição individual) e MuBE (mostra coletiva) em São Paulo.

Poptic

Artista Plástico: Robinson Machado

Curadoria: Luize Coutinho

Abertura: 01 de junho, segunda-feira, às 19h.

Exposição: 02 de junho a 12 de julho

Local: Piola Jardins

Endereço: Alameda Lorena, 1765, Jardins - São Paulo / T: +55 11 3064 6570

Realização: Art inside Piola

 Apoio: ADSigns www.adsigns.com.br

 



Escrito por Robinson Machado às 18h29
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Escrito por Robinson Machado às 08h38
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Colidido

Dividi meu quarto em dois, e já faz tempo, para torná-lo meio ateliê, meio improvisado. Meio cheio, meio vazio. No cômodo, durmo de um lado e sonho do outro. Tintas, pincéis, recortes, telas e um cavalete que divide espaço com um PC e um eMac, meus livros e uma papelada sem cabimento do meu eu jurídico. O vento que vem da varanda vez ou outra espalha tudo ao chão e caminho em cima do acaso, como sempre. É ali que mal acompanhado de mim mesmo produzo arte. Digital e analógica.

 

Aquilo é o meu útero. Em gestação estão as séries Asfixia – óleo sobre tela, minha primeira experiência minimalista – e a continuidade da série Poptic, minha criação digital, que em alguns dias estará em um coletivo no Mube e uma individual na Eca. Ah, e em algumas semanas em uma mostra de arte no Mato Grosso.  

 

Isso tudo nasceu do isolamento, da pincelada secreta, da solidão. Impensável imaginar alguém assistindo a criação, a eventual frustração de um erro de desenho, de uma cor mal-misturada, de instantes eternos frente à tela em branco sem a coragem do primeiro traço.

 

Impensável até então.

 

A Cia Teatro da Colysão me convidou para participar do espetáculo Cabaré da Fronteira, em cartaz em São Paulo. No último sábado, pintei um quadro em público, pela primeira vez. Uma obra nasceu no palco, com pinceladas mais rápidas do que estou habituado e com uma platéia acompanhando cada movimento.

 

Peito quicando nos instantes que antecederam a última campainha, a paleta de cores prontas, o cavalete armado, a tela lá, branca, quase espelhando minha expressão de falsa segurança. O elenco em aquecimento, alguma conversa para combinar minhas eventuais intervenções na apresentação. Uma música antes do início. Ouso tocar percussão para acompanhá-los: sento no cajon, uma caixa batucável de som de primeira, que foi criado no Peru, país que conheci em janeiro. E foi decidido que tocaria em uma música durante a peça.

 

O musical começa lá fora, com todo o público. Sozinho no palco, risco a carvão o esboço. Entra o elenco, o público se acomoda. Sou apresentado e nem me reconheço. A primeira música, a segunda.  Tango e samba. Vôo dentro da tela e a preencho por instinto. Momentos de surdez, de devaneios.

 

O encontro da minha arte com a de um grupo maravilhoso como o Colysão me mastigou por dentro e fui cuspido na realidade por mim antes impensada. A experiência compartilhada da multi-arte mandou passear minha monoangústia. Música, teatro, arte visual e amizade ali, na ponta dos meus dedos e na secura da minha garganta.

 

O quadro pronto já nem fazia mais sentido. Valeu o processo, meus dedos inchados pela vontade das batidas da percussão. Compasso. A cortina se fechou em cima da minha pele suja de tinta e da alma limpa de alívio.   

 



Escrito por Robinson Machado às 13h56
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CONVITE AOS LEITORES

Caro leitor,

No próximo sábado, dia 2 de maio, às 19 horas, vou participar da peça Cabaré da Fronteira, um musical que une o samba e tango para falar de conflitos humanos.

 

Pintarei um quadro a óleo durante o espetáculo, observando os atores em cena.

 

A apresentação acontecerá na Sede Luz do Faroeste, que fica na Alameda Cleveland, 677 – Luz (Próximo ao Terminal Princesa Isabel) e o preço do ingresso é o valor que você quiser pagar.

 

Mais informações logo abaixo.

Espero que possa assistir e levar mais gente.

=D

 Musical que estréia em São Paulo mistura samba e tango para falar de conflitos das relações humanas

Pré-temporada do “Cabaré da Fronteira” começa dia 25 de abril na Sede Luz do Faroeste, no centro da cidade

 

São Paulo, abril de 2009 – Estréia em São Paulo no dia 25 de abril a pré-temporada do Cabaré da Fronteira, musical que une tango e samba criado pela “Cia. Teatro da Colysão”. A peça, que será encenada na sede do Pessoal do Faroeste, no bairro da Luz, conta a história do último dia de um cabaré característico dos anos 30, construído exatamente em cima da fronteira geográfica entre Brasil e Argentina para ser palco das músicas típicas dos dois países. A trama se passa em meio aos bombardeios de uma guerra e relata dramas secretos da vida boêmia.

São abordados na obra diferentes aspectos das relações humanas, tendo o “encontro”, ou a sua ausência, como a principal referência para tratar dos conflitos diários da vida contemporânea. As fronteiras intransponíveis entre as pessoas e as armas de autodestruição social são metáforas exploradas com brilhantismo no espetáculo.

A angústia da espera, ou a ausência do encontrar, marca a história carregada da melancolia do samba dos morros cariocas e da intensidade apaixonada do tango. Esta dualidade cultural é o pano de fundo de um equilíbrio entre o cômico e o trágico e do diálogo permanente entre a reflexão e a ironia. É possível identificar no musical a fusão das linguagens do Teatro Épico e do Teatro de Revista, elementos pesquisados pela Companhia.

Além de dar vida a personagens densos e bem construídos, os cinco afinados atores soltam a voz para dar vida a músicas populares no Brasil e na Argentina. Polivalentes, o elenco acompanha as músicas ao som de violões tocados por eles mesmos e ainda dançam canções clássicas argentinas. A interpretação intensa dando base ao uso de uma sonoridade claramente nostálgica se mescla a algumas passagens discretamente coreografadas no decorrer da peça – isso confere ao Cabaré da Fronteira a vitalidade necessária para transmitir impecavelmente as questões relacionadas às chamadas guerras do dia-a-dia, onde a diferença entre encontro e colisão é mínima.

 

Sobre o projeto – A Cia Teatro da Colysão, formada pelos atores Leandro Dias, Welton Santos, Dígima Neves, Rosana Araújo e Tânia Luares, criou o musical a partir do projeto “Tango pode dar samba”, uma pesquisa de campo na Argentina que colocou o grupo em contato com a essência do tango, em contrapartida ao conhecimento já acumulado sobre samba e música popular brasileira.

Baseado na pesquisa, o tema encontro se tornou o principal conceito a ser desenvolvido, influenciando até no tipo de organização coletiva dos integrantes: adotaram um perfil de trabalho colaborativo, em que as relações profissionais não se dão por sistemas hierárquicos.

Com processo orgânico de produção, na pré-temporada do Cabaré da Fronteira o grupo pretende realizar alterações no musical ao longo das apresentações a partir da interação direta com o público e uso de novas idéias.

A experimentação teatral em contraponto a outras linguagens fará parte da gama criativa do Cabaré da Fronteira. A cada apresentação, um artista plástico será convidado para que pinte um quadro durante o espetáculo de maneira intuitiva, de acordo com suas impressões sobre a peça. Haverá também convites a músicos diferentes – especialistas em diversos tipos de instrumentos – que deverão participar com performances de improviso.  

 

Serviço

 

Peça: Cabaré da Fronteira

Gênero: Musical

Direção e criação: Leandro Dias, Welton Santos, Dígima Neves, Rosana Araújo e Tânia Luares

Pré-temporada: 25 de Abril até final de Junho

Classificação etária: 14 anos

Duração: 80 minutos

Horários: Sábados às 19h00

Ingressos: “Pague quanto puder”

Local: Sede Luz do Faroeste. Alameda Cleveland, 677 – Luz (Próximo ao Terminal Princesa Isabel)

Capacidade: 80 lugares

Informações: 3362-8883

 

 



Escrito por Robinson Machado às 12h06
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Cabaré da Fronteira

Imperdível, programa-se para o próximo dia 25!

Leia agora no Terra: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3708132-EI6581,00-Musical+une+samba+e+tango+para+discutir+relacoes.html

Musical que estréia em São Paulo mistura samba e tango para falar de conflitos das relações humanas

Pré-temporada do “Cabaré da Fronteira” começa dia 25 de abril na Sede Luz do Faroeste, no centro da cidade

 

São Paulo, abril de 2009 – Estréia em São Paulo no dia 25 de abril a pré-temporada do Cabaré da Fronteira, musical que une tango e samba criado pela “Cia. Teatro da Colysão”. A peça, que será encenada na sede do Pessoal do Faroeste, no bairro da Luz, conta a história do último dia de um cabaré característico dos anos 30, construído exatamente em cima da fronteira geográfica entre Brasil e Argentina para ser palco das músicas típicas dos dois países. A trama se passa em meio aos bombardeios de uma guerra e relata dramas secretos da vida boêmia.

São abordados na obra diferentes aspectos das relações humanas, tendo o “encontro”, ou a sua ausência, como a principal referência para tratar dos conflitos diários da vida contemporânea. As fronteiras intransponíveis entre as pessoas e as armas de autodestruição social são metáforas exploradas com brilhantismo no espetáculo.

A angústia da espera, ou a ausência do encontrar, marca a história carregada da melancolia do samba dos morros cariocas e da intensidade apaixonada do tango. Esta dualidade cultural é o pano de fundo de um equilíbrio entre o cômico e o trágico e do diálogo permanente entre a reflexão e a ironia. É possível identificar no musical a fusão das linguagens do Teatro Épico e do Teatro de Revista, elementos pesquisados pela Companhia.

Além de dar vida a personagens densos e bem construídos, os cinco afinados atores soltam a voz para dar vida a músicas populares no Brasil e na Argentina. Polivalentes, o elenco acompanha as músicas ao som de violões tocados por eles mesmos e ainda dançam canções clássicas argentinas. A interpretação intensa dando base ao uso de uma sonoridade claramente nostálgica se mescla a algumas passagens discretamente coreografadas no decorrer da peça – isso confere ao Cabaré da Fronteira a vitalidade necessária para transmitir impecavelmente as questões relacionadas às chamadas guerras do dia-a-dia, onde a diferença entre encontro e colisão é mínima.

 

Sobre o projeto – A Cia Teatro da Colysão, formada pelos atores Leandro Dias, Welton Santos, Dígima Neves, Rosana Araújo e Tânia Luares, criou o musical a partir do projeto “Tango pode dar samba”, uma pesquisa de campo na Argentina que colocou o grupo em contato com a essência do tango, em contrapartida ao conhecimento já acumulado sobre samba e música popular brasileira.

Baseado na pesquisa, o tema encontro se tornou o principal conceito a ser desenvolvido, influenciando até no tipo de organização coletiva dos integrantes: adotaram um perfil de trabalho colaborativo, em que as relações profissionais não se dão por sistemas hierárquicos.

Com processo orgânico de produção, na pré-temporada do Cabaré da Fronteira o grupo pretende realizar alterações no musical ao longo das apresentações a partir da interação direta com o público e uso de novas idéias.

A experimentação teatral em contraponto a outras linguagens fará parte da gama criativa do Cabaré da Fronteira. A cada apresentação, um artista plástico será convidado para que pinte um quadro durante o espetáculo de maneira intuitiva, de acordo com suas impressões sobre a peça. Haverá também convites a músicos diferentes – especialistas em diversos tipos de instrumentos – que deverão participar com performances de improviso.

 

 

Serviço

 

Peça: Cabaré da Fronteira

Gênero: Musical

Direção e criação: Leandro Dias, Welton Santos, Dígima Neves, Rosana Araújo e Tânia Luares

Pré-temporada: 25 de Abril até final de Junho

Classificação etária: 14 anos

Duração: 80 minutos

Horários: Sábados às 19h00

Ingressos: “Pague quanto puder”

Local: Sede Luz do Faroeste. Alameda Cleveland, 677 – Luz (Próximo ao Terminal Princesa Isabel)

Capacidade: 80 lugares

Informações: 3362-8883

 



Escrito por Robinson Machado às 10h04
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Considerações acerca de você

Você já se perguntou o porquê de se sujeitar às armadilhas do seu trabalho. Já desabafou sobre a incompetência de seus pares colando os cotovelos na mesa suja de um bar com mesas na calçada. Você já jurou que mandaria um cliente tomar no cu, tomar um Valium, já jurou tomar um porre em nome do desalento, já cogitou mudar de emprego em busca de algo que te faça feliz a menos custo, dinheiro e respeito. Já sentiu o frio na barriga de uma demissão esperada e ainda assim terrível, desejada e ainda assim amarga. Amargou o fundo de um café frio e conteve a ânsia causada pela última tragada de um cigarro aceso à força, como desculpa para os minutos de reflexo-decepção. Você já desejou ser outro que queria ser outro que queria ser você. Desejou matar, matar a fome, matar o tempo, matar o tédio. Maltratar o vagabundo malfeitor, bem dizer o mal feitor, amaldiçoar o dito santo, o dito popular, o dito cujo. Você já se questionou à exaustão e deixou de responder ao bom dia, à confirmação de recebimento de e-mail, ao convite, ao chamado, ao chamado amor. Você já abandonou seus amigos e se aproximou dos colegas. Você deixou de ir pra ficar, você ficou para não voltar, você almejou sem querer e conquistou o que não era para você. Almoçou dinheiro e vomitou sozinho. Você já se vestiu de adulto e chorou que nem criança. Você já se vestiu de terno e rasgou os laços de ternura. Você já tentou correr e acabou sentado. Você já tentou se levantar e caiu nas graças da tragédia. O medo. A ira. A preguiça. A ilusão. Tudo isso te pertence e não se vai.



Escrito por Robinson Machado às 15h38
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Meu refúgio é a arte.

Meu subterfúgio é o jornalismo.

Meu fútil é o outro.

Meu útil é o outro lado.

 



Escrito por Robinson Machado às 10h34
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Amor Veneris - mais uma apresentação



Escrito por Robinson Machado às 17h55
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Incaicas

De onde vem esta...

 

 

 

 

 

 

 

...tem muito mais.

Acesse www.picasaweb.google.com/robinsonmachado. Com a benção de Pachacutec.   



Escrito por Robinson Machado às 10h10
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Amor Veneris

Para saber mais sobre o projeto Amor Veneris, visite agora http://amorveneris-sp-pa.blogspot.com/ 

Bastidores, conceito e até uma ficção que já havia publicado no Coletivo Literário já estão no novo blog.

 

Saludos desde Cuzco



Escrito por Robinson Machado às 02h21
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Participação no Fórum Social Mundial

Casa de Caboclo- Intervenções Artísticas no Fórum Social Mundial 2009.

Por lá:

Fotovideodança:
Amor Veneris- Um Colar de Brilhantes para uma Pobre Donzela


Por: Corredor Polonês Atelier Cultural


Onde?
Praça da República, Belém-PA
Data/ hora- (não confirmado)

Intérpretes Criadores:
Isabela do Lago (Jóia Laura), Pedro Olaia (violoncelista) e Vanessa Hassegawa (Mona Sofia).

Produção:
Belém- Artur Leandro, Isabela do Lago, Pedro Olaia

São Paulo- Renata Daibes e Sabrina Flechtman

Ensaio fotográfico na Vila Maria Zélia: Robinson Machado

Edição: Marcelo Paradella

Trilha: Flora Purim com interferências de Isabela do Lago e bastião (violoncelo de orelhão)

Figurino: Isabela do Lago e acervo do Pessoal do Faroeste Companhia de Teatro

Assessoria de Imprensa: Helaine Martins

Informações:
isabeladolago@gmail.com e v.hassegawa@gmail.com

* Concepção inspirada na zona do meretrício do bairro da Campina (Belém-PA) e no romance O Anatomista, Frederico Andahazi.



Escrito por Robinson Machado às 13h16
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2008 boas lembranças

Foto: Robinson Machado

 



Escrito por Robinson Machado às 17h08
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Da Op à Pop

O nascimento da Poptic

Obra de Robinson Machado, Sem título; impressão lenticular sobre placa acrílica; Série Poptic, 2008 / Foto: Camila Silva



Escrito por Robinson Machado às 12h02
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Via luzes

O Natal tem o mesmo significado que tem para todo mundo e poucos admitem: é tempo apenas de trocar presentes e criar um clima falso de relações humanas, a partir de rituais enfadonhos. O cenário disso tudo é feito de uma estética menos religiosa do que pirotécnica, europeizada, capitalista e pouco adequada à realidade histórica da celebração.

Dezembro desponta e as decorações que remetem a doendes escravos e um velho de vermelho que mais parece um aposentado filantropo pervertido dominam as ruas, as praças, as emissoras de TV e as casas. Obviamente, todo o simbolismo é motivado para acelerar as compras, todo o simbolismo vira approach de propaganda, de pretextos pessoais para falar de amizade, de visitar a família, de comer comidinhas diferentes de fim de ano. O circo está armado e com ele os amigos secretos, as roupas novas, os planos de onde passar o feriado, o trânsito composto por zumbis das compras, e as luzes. Ah, as luzes.

Banal e piegas, a iluminação natalina - em conjunto com neve artificial, árvores cheias de bolas brilhantes, roupas de inverno em bonecos grotescos, penduricalhos medievais e toda essa coisa sem sentido - é a força motriz de uma falsa alegria, tão evidente quanto esvaziada de coerência com nossa realidade diária. Os sorrisos e olhares das crianças para esta intervenção comercial são incentivados pela pura irresponsabilidade, enquanto o significado que a data deveria ter passa batido. Sob a benção dos piscas-piscas, mais uma geração de entorpecidos é criada, girando o motor de um sistema social superaquecido e predador do desenvolvimento intelectual e da formação de cidadãos menos alienados. Cidadãos que poderiam contribuir para a criação de um mundo melhor pelo simples exercício da consciência.

O valor gasto com decoração pelo setor privado, que chegam a mega-estruturas sem qualquer valor artístico ou estético, poderia ser revertido em doações de cestas básicas, da criação de um programa social para comunidades carentes, por exemplo.

No caso do setor público, é pior: se o Estado deve ser laico, como permitimos o financiamento de parte deste freak show?  

Trata-se de uma ditadura velada, da falta de respeito à diversidade religiosa; ora, não há apenas cristãos no mundo. Da mesma maneira que as estratégias mercadológicas criadas por Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, são usadas até hoje pela publicidade, pelo imperialismo estadosunidense e todo o corporativismo mundial, os cristãos se apropriam disso tudo, ou não impedem a calamidade buscando dar o devido valor que eles deveriam atribuir a este contexto. Abriram as portas para o oportunismo de quem deseja lucrar com o que um dia foi uma celebração simbólica de uma das tantas religiões existentes, limitada a seu campo e com respeito às tradições criadas por eles mesmos e, principalmente, às outras que integram a belíssima diversidade humana.     

Além disso, a cidade não fica mais bonita; as árvores amarradas de luz ficam cafonas; as fachadas das casas mostram como nossa arquitetura é ruim; os enfeites não têm qualquer identidade com a cultura brasileira; as guirlandas são toscas; os presépios são depressivos; os anúncios poluem; e as vitrines atraem nós, os idiotas. É tudo uma grande e visualmente feia mentira.

Uma mentira que não nos dá escolha. Somos obrigados a fazer parte disso. Aprendemos desde cedo que temos que ter o trambolho de uma árvore na sala, que temos que colocar presentes debaixo dela para trocar antes ou depois de uma ceia que inclui castanhas, panetones e algum animal morto que não temos o hábito de comer ao longo do ano. Somos obrigados a ver as luzinhas em todo lugar, de uma recepção de dentista ao apartamento de um casal de amigos, do horizonte cinza a um enorme edifício. É difícil sair da mediocridade se somos cooptados pelo padrão, principalmente por um tipo de nazi-facismo colorido e brilhante - uma ferramenta que seduz quem não pára pra pensar em como somos limitados em não identificar tamanha afronta à nossa inteligência e individualidade.



Escrito por Robinson Machado às 12h05
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O pior amigo

Tive meu primeiro amigo aos seis anos de idade. Para além de todas as infinitas tardes de brinquedos, bolas, jogos, correrias e conhecimento ainda limitado de um mundo que não nos queria, Ricardo marca minha vida como a primeira, a principal e a pior referência. Antes da minha peleja no melhor estilo conhece-te a ti mesmo, conheci bem esse garoto negro que aos oito anos já tinha doze graus de miopia, e estou certo de que, se hoje ele tem traumas, parte deles existem por minha causa.

 

Mais ingênuo do que uma criança pode ser, desde sempre até a adolescência, foi o alvo do que havia de pior em mim, do pior da crueldade nata que uma criança tem. Era Ricardo o meu oposto. Ele era diferente. Isso me bastava par maltratá-lo, agredi-lo e subjugá-lo à minha diversão por meio de deboches, acintes e humilhações. Ele nunca estava certo diante da minha presença, ele nunca sabia algo que eu não soubesse mais detalhes, ele nunca teve uma opinião que superasse a minha. E ainda assim, ele me tolerava, pois não tinha mais ninguém. Na escola, no bairro, Ricardo era o típico garoto bobo. Apanhava dos garotos, era ignorado pelas meninas, era o coitado para os vizinhos. Era meu sparring pessoal.  

 

Meu melhor amigo era o mais dispensável. Se havia uma outra criança por perto, disponível, ou um primo, ou qualquer outra coisa à mão, o ignorava, o difamava. Ele não era o Robinson, o exaltado pequeno gênio: isso me bastava para justificar tudo.   

 

Enquanto tinha dificuldades na escola, chegando a ser reprovado na primeira série, aprendi a ler e escrever aos quatro anos. Enquanto eu jogava futebol ou qualquer esporte com bola com certa desenvoltura, ele era o último a ser escolhido para qualquer time. Eu tinha mais regras nos jogos com os amigos, ele era o café com leite. Ele perdia suas bolinhas de gude para minha coleção. Ele apanhava nas brincadeiras de mão. Perdia na corrida, na rapidez de subir nos telhados, na agilidade. No pega-pega com a turma da rua, estava sempre com ele.

 

Ele morava num sobrado. Minha casa era um barraco. Ele sempre tinha os melhores brinquedos, até eletrônicos; fiquei com minha imaginação. Ele tinha pai e mãe presente. Minha mãe viúva trabalhava o dia todo. Ele viajava, ia muito ao Guarujá; eu divagava. Ele não sabia empinar pipa. Não me importava, mas sabia cortar e aparar. Suas roupas eram mais caras. Seu pai tinha um sítio em São Roque e me levou até lá duas vezes. Lá, ele dormiu com conforto; tive uma crise de bronquite e estraguei a viagem toda.

 

Apaixonado por automóveis desde sempre, a única coisa que lhe interessava no mundo, ele só tinha o sonho de fazer dezoito e poder dirigir. Sempre foi a única coisa que entendeu bem. Sabia falar de motores, de marcas, de potências, de aparatos de som. Não conhecia música, não via filmes, não tinha amigos. E isso bastou para que passasse a não me interessar, até hoje, em não dirigir, em ter um carro. Diferente, claro, da maior parte dos garotos de bairros carentes como o que morei, que trabalham anos somente para conseguir comprar um veículo, nada mais.

 

Meu amigo não era dado aos livros, aos cadernos. Por favor à sua mãe, que pediu à minha, e por elevar meu ego, passei muito tempo dando aulas ao Ricardo. Meu prazer íntimo era deixar claro que sabia e ele não. Não há livro que folheie hoje que não me faça lembrar disso. E isso bastou para que nunca abandonasse o hábito; o que me fez chegar à faculdade, entre outras coisas.

 

Era religioso, acreditava naquilo. Foi coroinha na igreja do bairro e ganhou o apelido de Aleluia; só era chamado assim na escola. Nunca o defendi, ria dele todos os dias. Nessa época, as brincadeiras de criança já tinham dado espaço a horas de bate-papo, no melhor estilo tic-tac - o tempo vai passando e a gente aqui sentado no banquinho conversando. No entanto, superada a infância, lá pelos treze anos, minha maior diversão era descobrir formas de constranger o Ricardo com questões difíceis, com ofensas sutis que o faziam rir e com provocações que poderiam fazê-lo chorar.

 

Ricardo nunca lamentou. Ele nunca reclamou da vida, das coisas que não teve, das coisas que perdeu. Quando descobriu que o pai tinha uma amante na rua de baixo, se contentou com a explicação do velho de que um dia ele ia crescer e entender. Quando o excluía da minha vida para passeios bacanas, me esperava. Quando não apresentava gente interessante por vergonha, ele gostava depois de ouvir como eram, o que faziam. Ele foi o ouvinte das minhas primeiras experiências sexuais, das minhas vitórias e conquistas. Era como se ele fosse um blog, algo que geralmente serve para nos "ouvir" falando, por puro egocentrismo e falta de grana para o psicólogo.

 

Ele queria aprender a jogar vôlei comigo quando passei em testes de grandes clubes; queria acampar quando ingressei num grupo escoteiro. Mas ele não foi. Queria deixar de usar óculos, queria ter franja, queria ter namorada, queria poder ficar na rua até tarde. Mas ele não pôde.

 

Seria conveniente, seria uma superação, seria um aprendizado olhar para trás e me arrepender do que fiz. Mas esse olhar para o passado ignoraria as coisas que me fizeram agir assim pelo fácil sentimento da culpa, que não considera que somos como somos pelos encontros, ou esbarrões, que os outros nos dão.

 

Não questionei o mal que me fizeram ou o bem que não me deram, assim como ele. Hoje vejo como erro, mas não havia como saber, não havia ferramenta para quebrar a seqüência social de causa e efeito.

 

Passei para frente uma corrente torpe de relações humanas e insanas que todos estamos sujeitos, que todos estamos à mercê. Isso não justifica, mas explica essa humanidade cruel, que nos torna egoístas, que nos torna falsos altruístas, que nos torna gente comum. Que nos torna atores num ateliê e artistas plásticos num palco, que nos torna cineastas na hora de escrever e escritores na hora de assistir a um filme, que nos torna músicos numa poesia e poetas quando é preciso silêncio.

 

Poderia no próximo fim de semana tocar a campainha da mesma casa que ele mora desde que nasceu, dar o primeiro abraço que daríamos em toda a nossa vida e lhe pedir desculpas, mesmo sabendo que ninguém jamais bateria à minha porta com a mesma intenção reparadora.

 

Poderia comentar, com minha vã filosofia, suas vitórias, a frota de vans escolares que ele montou sozinho. Falar sobre como ficou bem de lentes de contato; comentar como hoje todos daquele bairro, menos carente e feio, o conhece pelo nome e não passam pela rua sem cumprimentá-lo com gestos largos e sorrisos sinceros. Isso consertaria alguma coisa? Isso redimiria as mazelas do mundo que ele descobriu em sua vida pelas minhas mãos? Ele se dá conta de tudo isso ou prefere fingir que sempre fui seu amigo, que sinto saudade dele ou daquela favela que crescemos?

 

O fato é que nem sei ao certo se hoje ainda sou alguma referência, se tive alguma importância quanto ao que ele é, ou queria ser. Sei que, sim, o garoto que atormentei e tanto tratei mal fortalece as atitudes condenáveis que fazem parte da minha rotina, da minha humanidade desprezível. Meu fantasma, minha antítese e meu espelho.

 

Quem era o coitado, afinal? Baseando-me nele, me dedicava a superá-lo, me dedicava a ser melhor, a mostrar que era melhor, o tempo todo. A preocupação era somente minha, pois precisava superar seus brinquedos caros, sua bela casa, o amor incondicional dos pais, irmã e parentes. Precisava superar, principalmente, sua falta de preocupação com tudo, sua displicência nos estudos, que não o impediam de dormir. Precisa superar sua falta de preocupação com o futuro, que jamais geraria uma frustração, sua falta de vontade de ser diferente, de ser único.

 

Ele queria ser mais um e via nisso a sua felicidade, ora, a dádiva da mente vazia e o coração aberto. O garoto coitado era eu, que, desde cedo, já sabia o que queria e o que não queria. Que já sabia sentir ódio, já sabia que era pobre e não tinha a menor perspectiva de ser o que sonhava, um escritor e desenhista. O garoto coitado era eu que já pensava em fugir de casa, que já tinha planos de fazer um atentado terrorista, que já tinha roubado, bebido, fumado, agredido... O garoto coitado era eu, que concluiu a infância diagnosticado como depressivo, narcisista e intolerante.

 

O Ricardo me mostra hoje, e nem sabe, que as melhores escolhas são aquelas que não podem fazer mal a ninguém. Mostrou que somos o que somos não por conta do que nos lapidaram, mas por conta do que tentamos lapidar nos outros, numa cadeia detestável chamada sociedade, que nos impele a tentar tudo sem medir conseqüências, pensando somente em nós mesmos.  

 

Meu melhor amigo merece ter a vida que deseja. Não deve ser o direito de ninguém classificar, julgar ou tentar mudar alguém que fez a sua escolha. Todos têm os seus motivos. Cada vida é, de fato, única e valiosa.

 

Espero que ele se lembre de mim pelos momentos que fui alguém que ele esperava que eu fosse.  



Escrito por Robinson Machado às 18h43
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Aconteceu, virou manchete

Pois é, de paradoxo em paradoxo, a gente vai levando. A gente vai levando experiência pra casa, sabendo como é pra poder criticar, sabendo os dois lados pra não escolher nenhum.

De um lado do ringue, o cenário cultural, a arte de elite, os conceitos, as teorias, os chatos falando de arte e a arte na minha vida como a principal atividade mental. Até que enfim.

Do outro lado, o papo, o pop, a indústria, o comercial, o luxo, o pseudo-glamour, a moda, o design, o jornalismo econômico, o mundo corporativo.

http://contigo.abril.com.br/reportagem/tulio-dek-pronto-decolar-391842.shtml?ft=1p

Mas acontece que nesse boxe todo não defendo cinturão, não sou desafiante. Sou o juiz da minha vida e de um jeito ou de outro, to ali pra não deixar que nenhum golpe baixo aconteça. To ali pra controlar o tempo das coisas, contar até 10 pra quem cair. Então, um dia do fútil, outro dia to no útil.

http://guia.folha.com.br/exposicoes/ult10048u411012.shtml

http://diversao.uol.com.br/album/arte_e_liberdade_album.jhtm

http://www.japao100.com.br/agenda/136/

E tem outra. Só existe uma coisa melhor que ser jornalista:

ser fonte...  

 



Escrito por Robinson Machado às 14h05
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3

 

Mal dia. Sem

 

Sim. Ora, nem

 

mil, nem fim.

 

 

Nem paz; Nós

 

não... Rio, sim,

 

tão sem vez

 

 

Vai ver, ela via

 

ser. Mês dez

 

sem seu par



Escrito por Robinson Machado às 13h39
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Diabo A4 mãos

"Melissas", o mais novo produto da conexão literária entre Aleph Davis e RM:

http://coletivoliterario.blogspot.com

Em breve, no seu (f)in-.com_Cient*y coletivo.



Escrito por Robinson Machado às 16h21
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No Hard Feelings

A verdade absoluta das coisas é que tudo não passa de uma grande mentira. A mentira absoluta é que a verdade não passa de grande coisa. Somos responsáveis pelo que somos, mas na hora de encarar um espelho e dividir com a imagem uns pesares quaisquer, acabamos por nos encerrar na pureza vil da covardia. É mais fácil deixar as coisas minimamente grandes e absolutas sem resolução, tornar as verdades mentiras e as mentiras vaidades. Mas não para mim. Somos todos patéticos; tanto maior é esta característica em alguém quanto menos este acha que é. Logo, sua vida é uma merda como a de todo mundo, minha amiga, meu amigo; pra que fugir da realidade? “É você olhar no espelho / Se sentir / Um grandessíssimo idiota / Saber que é humano / Ridículo, limitado / Que só usa dez por cento / De sua cabeça animal / E você ainda acredita / Que é um doutor / Padre ou policial / Que está contribuindo / Com sua parte / Para o nosso belo / Quadro social” Vê se cresce.

Escrito por Robinson Machado às 17h25
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Swing



Escrito por Robinson Machado às 10h37
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Ver o peso*

* Baseado em fatos reais.

 

"Minha cara, você vai cobrir um enterro. Os detalhes são os seguintes". A partir das duas frases iniciais, imaginou se algum ilustre da cidade havia morrido e se condenou por ser repórter e não saber antes de tal notícia. Ao se interar, não pôde segurar o riso, nem a certeza da boa história que apuraria. Ela deixou o Amazônia Jornal com uma testa franzida de curiosidade, seu bloco e uma bic. Aconteceu há quatro anos.

 

A mulher mais gorda da região, que devia pesar mais de duzentos quilos, era velada sentada em uma maca entre velas de sete dias. Morrera à frente da TV, naquela mesma posição que estava encerrada há dois anos. Lembrava a imagem mítica de Buda.

 

O insuportável calor do norte do país não deixou o cadáver esfriar nos dois dias que antecederam o enterro organizado por um engenheiro civil. Ela ainda suava e não se sabia se era a flatulência ou o corpo já começava a se decompor. 

 

Da família, só a filha. Curiosos e autoridades se postaram suados ao redor dela tentando manter as conversas normais de um velório padrão. Café, piadas e comentários de todos os tipos, como o campeonato de futebol local também era assunto. Tentavam ignorar o elefante branco naquela sala improvisada no Instituto Médico Legal – que é chamado de IML para não parecer uma fundação criada pelos Doutores da Alegria.

 

Depois de morta, para retirar o corpo da casa foi preciso quebrar uma parede a marretadas. O corpo de bombeiros foi mobilizado para tal feito, que chamou a atenção dos vizinhos, dos vizinhos de outras quadras e dos municípios vizinhos. Saiu da casa coberta por um lençol king size que, pelo que viu a repórter, estava molhado. Não soube apurar o porquê. Foi um circo; foi como se tivessem abatido o filhote de um triceratops e fossem levá-lo para análise científica. Foi uma loucura.  

 

Foi quase impossível levar o cadáver na ambulância. A operação toda durou algumas horas, até anoitecer. O velório com a defunta sentada, de cabeça baixa e mãos nos joelhos, onde de tanta carne quase não se viam dedos, permaneceu por mais tempo que o ideal. Isso ocorreu por conta da busca por uma resolução para detalhes da cerimônia de despedida: o macro-sepulcro, o big-caixão para um corpo em éle e seis mega-amigos – halterofilistas, se possível. 

 

O trator já começara a trabalhar lá no terreno que serviria para três mortos quando resolveram usar uma caixa de grandes proporções para o descanso eterno da sedentária. Improvisaram tinta e verniz para cobrir as sinalizações em vermelho de "frágil" e "este lado para cima" da embalagem e revestiram com sobras de tecido doadas por costureiras amadoras da região. Tiraram tanta terra que vale dizer que o jazigo se tornou um verdadeiro vale.  

 

O cortejo seguiu com a presença de centenas de pessoas, que iniciaram ali mesmo uma campanha contra a obesidade e decidiram começar juntas um regime e fazer exercícios. Alguns botons condenando alimentos gordurosos foram vistos e não se sabe quem produziu. Ameaçaram apedrejar um dos McDonalds da cidade e, por cautela, foi fechado durante o cortejo. No cemitério, algumas pessoas fotografavam a cova e o guindaste, que estava posicionado atrás de uma quase colina de terra para erguer e colocar naquela cratera o inusitado baú.

 

A falecida contava com os cuidados de sua filha, que dividia as horas entre o trabalho na recepção de um movimentado motel popular e o fornecimento de comida e medicamentos para a mãe imóvel. Conhecia dela cada dobra, por conta dos banhos, do cuidado com as escaras. Apesar de conhecer pelo nome, sobrenome e RG a maior parte dos curiosos que tiraram o dia para morbidamente ver o corpo, ninguém a cumprimentou.

 

Todos começaram a se preocupar com o fato de que ela conhecia muitos segredos e vivia por condição no anonimato e nos bastidores da vida sexual promiscua da cidade. Os gays pais de família, os adolescentes, os pedófilos, os sadomasoquistas, os adúlteros e os solitários surpreenderam-se ao se deparar com a recepcionista. Mal sabiam ainda que ela podia ouvir o que se passava nos quartos, noite após noite. Conversas e desabafos, revelações e lamúrias, eram exaustivamente repetidos aos ouvidos da moça. Sabia o perfil de cada um e suas informações. Tinha um repertório que daria base para qualquer chantagem. No entanto, manteve-se sempre discreta, calada. Mal conheciam sua voz.

 

E ninguém a conhecia antes do fato, ou mesmo sabia que tinha uma mãe naquelas condições. Os pêsames de todos não a deixavam parar para refletir e quem sabe sentir algum alívio por ter se livrado de tanta responsabilidade. Estaria livre para fazer outra coisa além do trabalho, quem sabe sexo, que apesar de sua profissão, nunca praticou por conta do terrível medo que sentia de uma gravidez e conseqüente obesidade temporária poderia gerar. Não suportava a hipótese de ser gorda como a mãe e acabar a vida em um show tão bizarro como aquele. Por isso, comia pouco; procurava literalmente correr do trabalho para casa, de casa para o trabalho.

 

Durante os dez anos dedicados a recepcionar o motel, criou o hábito de contar absolutamente tudo o que ouvia à mãe. Dez anos antes, a senhora não tinha mais que cinqüenta quilos e trabalhava normalmente em uma oficina de costura. Produzia vestidos por encomenda de lojas típicas da região, para vender a turistas interessados na cultura local. No começo, a moça se sentia constrangida em contar detalhes tão sórdidos. No entanto, começou a notar que o interesse de sua mãe era enorme, como se acompanhasse uma telenovela. Achou por bem manter o costume, já que a pobre não se ocupava mesmo de muitas outras coisas além da overlock.

 

Não se sabe quando a recepcionista notou que aquilo tinha se tornado um vício da mãe, que, aos poucos, engordava a cada dia. Tentou fazer compras mais saudáveis no supermercado, sugerir dietas, incitar a mulher a caminhar diariamente. Mas nada adiantou. Passou o tempo e só lhe restou cuidar da mãe e contar suas histórias, que envolviam a todos da cidade. Ficara enormemente gorda.

 

Num rompante de lamentações, a moça decidiu contratar uma enfermeira e se afastar da mãe. A mulher, vítima de obesidade mórbida, morreu três dias depois a decisão da filha de não mais alimentá-la de vida alheia. 

 

A repórter decidiu não incluir estas informações na reportagem, publicada com fotografia no dia seguinte em meia página do jornal, sem qualquer opinião ou bastidor da morte que emagreceu a cidade.

 

***

 

Agradecimento: Vanessa Hassegawa, que escreve o www.chegateamim.blogspot.com



Escrito por Robinson Machado às 18h43
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Respeitável público

— Queria que esse povo todo visse a intensidade que as coisas podem ter.

— Essas bobagens de novo; esqueça os outros.

— Olha ali, dá pra tirar tanta coisa do que não é óbvio...

— Sim, muita coisa a ser pensada, resolvida. Mas a questão é, se todo mundo fosse como você, teria coragem de pintar isso aí?

— É...

— A gente é alguma coisa por causa das referências. Que elas sejam piores mesmo e que pensem que são mais do que são. To por aqui disso, mas é engraçado demais ver a mediocridade em pleno exercício. Sei lá, vira pro lado e pimba!, tem algum idiota sacralizando um escritório como se fosse a nova Ágora.  

— Escritório. É como se o circo tivesse sido resumido a salinhas ar-condiconadas.

— Condicionadas ao não-intenso. Um dia vou metralhar essa porra toda. Só caco de vidro, papel e merda pelas paredes.

— É, isso é intenso. Mas faria algo além.

— O que?

— Pintaria tudo isso aqui de vermelho numa madrugada qualquer.   



Escrito por Robinson Machado às 12h00
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