Minha artes
De um quadro, todos eles, o meu jeito invisível. Da fotografia, o que é visível, mas, com licença, do meu jeito. Do meu texto, a fotografia do meu jeito abstrato, que não se vê – e o enigma perfeitamente adequado a qualquer um que o lê. Do desenho, o quadro do meu estado de tédio, rabiscado em texto não visto.
Da música, secreta, a foto de um quadro de texto em fundo invisível.
Escrito por Robinson Machado às 14h54
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Espera
O rolo de senhas preso à parede parecia normal, mas quando ela puxou um dos bilhetes numerados em forma de nariz postiço, um metro do fio de papel foi drenado sem se partir.
Os que já aguardavam, com seus tíckets em punho e expressões de sacos de sisal, pareciam não notar. Três metros, quatro metros, com a ponta entre os dedos dela. 136, 137, 138, 138, 140, 141, 256, 460, 523. Metros.
As serpentinas de papel tomaram os guichês, que funcionavam como ontem, como sempre; lentos e insólitos. Números impressos invadiram as frestas, apagaram as lâmpadas, as telas de computador. Ela segurou firme seu numeral, mas esqueceu o motivo da ida até lá. Em meio a tanto papel, um som rápido e agudo parecia chamar o próximo. Mas era apenas um celular que anunciava a falta de sinal, bloqueado pelo desenrolar todo.
Escrito por Robinson Machado às 17h53
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Das guerras
Foi bem na esquina da avenida Paulista com a Autobahn germânica; o sinal estava vermelho e o céu dourado. A coisa estava preta. O metralhar a esmo da Gestapo sob as matracas dos revoltosos zuniam La Marseillaise; os rufares lembravam Cordel do Fogo Encantado.
Era uma segunda e, talvez por isso, os mendigos não moveram as costas das paredes e os trens voltavam vazios, como se não tocassem os trilhos. As gravatas corriam para um lado, as motocicletas robustas arrancavam a 120 por hora para outro. Alguém gritou algo sobre a chegada de novas bandeiras. E estavam mesmo lá, pontos coloridos onde o caminho fica pontiagudo e tenta perfurar o horizonte, que já subia rosa pra deixar tudo mais real.
Escrito por Robinson Machado às 15h11
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Fragmento de apartamento
À margem dos Jardins, do plural escondido em canteiros, da varanda encaro a fiação da Brigadeiro Luis Antônio. Até onde se vê o enfileirado de automóveis, até onde não se vê o que arranca o silêncio, é no acelerar dos coletivos que a paz em paradoxo invade aquele apartamento.
São Paulo entra pelas janelas, pelas frestas, fecha os dedos sobre as paredes daquele prédio de 50 anos.
Escrito por Robinson Machado às 11h16
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