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      Robinson Machado, 27, paulistano, é jornalista e artista plástico. Publica no blog fragmentos literários e arte visual

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    Escrito por Robinson Machado às 12h21
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    Clube da Vingança V

     

    O pequeno Oswaldo Saraiva começou a se aventurar pelas bifurcações da leitura muito cedo, aprendera as primeiras palavras aos 3 anos e com cinco lia em voz alta Dom Casmurro, mesmo que sem entender muita coisa. Não conheceu o pai, vendedor da Livraria Siciliano, que morreu de diabetes e deixou somente uma humilde biblioteca, de pouco mais de 100 livros. Uma rede que transformou suas livrarias em shoppings literários comprou a Siciliano. Hoje, com quase 30 anos, Oswaldo reúne artefatos explosivos caseiros, para usar caso a tradicional livraria perca o mínimo da identidade que lhe restou.       

     


    Clube da Vingança IV

     

    Achou que vomitaria os pulmões, de tanto que correu pelo time. Não fez gols, mas contribuiu com os dois e não teve culpa nos três que, debaixo de chuva, estufaram a rede que defendia. Quando o técnico o chamou para substituir e ele abriu os braços de indignação, dez mil o vaiaram em ritmo sincopado. “Ei, Valdir, vai tomar no cu. Ei, Valdir, vai tomar no cu”. Passou de cabeça baixa pelo treinador, que esfregou a mão no seu cabelo suado, como se tivesse seis anos. Sentou no banco e deixou descer o isotônico vermelho pela garganta, imaginando o sangue gelado daquele que não tinha o direito de encadear sua humilhação.

     


    Clube da Vingança III

     

    Sofia não está certa se foi alvo de pura maldade ou se foi troco. Ela perseguiu aquele cara ainda confuso até rearranjar idéias na cabeça do sujeito. Sujeito sem predicados lá muito comuns, desses urbanos que ninguém entende, mas não desacredita. O fato é que a obsessão de Sofia despertou sua ira. Ela perdeu o respeito de muitos, teve a conta bancária invadida, os e-mails hackeados e o ego ferido. Sobrou sobressalentes e meia dúzia de amizades congeladas na adolescência. Sofia está confusa quanto ao revide.  


    Clube da Vingança II

     

    Cecília partiu entre os dentes a tampa da caneta e girou sua cadeira com pouca destreza. Derrubou em papéis um café já frio – que gotejou pegajoso, sujou uma das pernas embrulhadas em jeans envelhecido. Havia caixas de papelão na mesa. Olhou com tanta dureza para Oswaldo, de cabelo curto, camisa azul e orelhas avermelhadas, que um dos dedos do colega permaneceu afundado no teclado. Sabia que era o último dia de Cecília. Sabia também que a culpa da demissão jamais seria esquecida. Sabia que o melhor a fazer naquele momento, era não se moverrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr


    Clube da Vingança I  

    Se não fosse ele o simulacro da razão, de tão passional, teria se jogado da varanda. Quarenta e dois anos, seis meses e quinze cigarros. Para Soares restou um ódio de filha, uma lata de conservas pela metade e contas por pagar. Tiraram-lhe tudo, o emprego, os cabelos, o gosto por cavalos e o hábito de comprar ferramentas, sem nunca ter feito com eficiência nenhum reparo na casa. Como ninguém em situação similar é capaz de ter idéia razoável, rabiscou diversos nomes a lápis em comprovantes de compras a crédito, numa lista que tinha em seu topo a palavra vingança.



    Escrito por Robinson Machado às 10h06
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