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      Robinson Machado, 27, paulistano, é jornalista e artista plástico. Publica no blog fragmentos literários e arte visual

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    Jornalista plástico
     


    Perdido na estepe

    HAMM

     

    Ontem! Que quer dizer isso? Ontem!

     

    CLOV

     

    (com violência) Quer dizer a merda do dia que veio antes desta merda de dia. Uso as palavras que você me ensinou. Se não querem dizer nada, me ensine outras. Ou deixe que eu me cale.

     

    Pausa.

     

    HAMM

     

    Conheci um louco que pensava que o fim do mundo tinha chegado. Ele pintava. Eu gostava muito dele. Ia vê-lo no hospício. Eu o tomava pela mão e o arrastava até a janela. Olhe! Ali! O trigo começa a brotar! E ali! Olhe! As velas dos pesqueiros! Como é bonito! (Pausa) Ele me fazia soltar sua mão, bruscamente, e voltava para o seu canto. Apavorado. Tinha visto apenas cinzas. (Pausa) Apenas ele tinha sido poupado. (Pausa) Esquecido. (Pausa) Parece que o caso não é... não era... tão... tão raro.

     

    CLOV

     

    Um louco? Quando isso?

     

    HAMM

     

    Ah, há muito tempo, há muito tempo, você ainda não estava no mundo dos vivos.

     

    CLOV

     

    Bons tempos.

     

    Pausa. Hamm tira o gorro.

     

    HAMM

     

    Eu gostava muito dele. (Pausa. Recoloca o gorro. Pausa) Ele pintava.

     

    Samuel Beckett, Fim de Partida (Cosacnaify) 



    Escrito por Robinson Machado às 22h12
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    "Otoridade"

    Nem era dez da noite, chego de um jantar, desço do carro e a viatura de polícia dobra a esquina da Avenida Brigadeiro Luis Antônio com a Alameda Sarutaiá. A abordagem é rápida e agressiva, o policial, visivelmente despreparado, desce com arma em punho, olhos arregalados e me rende.

     

    Sou revistado aos trancos, com as mãos na parede e tudo mais, e interrogado com rispidez. De onde veio? Está indo pra onde? Vai entender. Ah, claro, documento.

     

    Vestia paletó, camisa e um colete de indignação da marca non sense. Com olhar de despeito, desprezo e algum ódio acumulado, identifiquei-me, ergui a cabeça, encarei o puliça e seu parceiro, posicionado com seu revólver a uns 4 metros. Cheguei até a sorrir, como fazem os criminosos que têm bons advogados.

     

    Devolveu minha identificação. "Boa noite para o senhor", disse o senhor gambé. Dei as costas, sem dizer palavra para o filho da puta que estava procurando o que fazer. Jardins, Lauzane Paulista, nada muda. Em todo lugar se vende coxinha.



    Escrito por Robinson Machado às 10h33
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    Prece de Trickster ao Deus Ex Machina

    De um guindaste desce neste leste palco o π μηχανς θεός,

     

    e calado ou aos berros,

    e nu ou em fibra ótica,

    e imberbe ou em máscara,

    resolve a tragédia no meu cômico pensar.



    Escrito por Robinson Machado às 11h25
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