Calle
Meus pés em tênis pisavam a calle Florida, meus olhos pesados viam os couros argentinos à venda, mas minha cabeça girava no ritmo de uma tarde agitada de São Paulo. Não sei dizer ainda se o ar de Buenos Aires vem carregado de solidão ou se eu trouxe de casa alguma ventania presa nos meus pulmões. Tornei-me tornado por aqui. Aqui dentro. Sabe?
Deixei o albergue rumo a qualquer lugar do mundo que não fosse a Suíça. Mas não fui longe, os arredores ainda eram novos o suficiente para que dali não fugisse, que dali não voltasse para casa, que dali não morresse de algo ou por alguém. Florida. Essa rua me diz ao pé do ouvido e na contra-mão que dos milhões de minutos que vivenciamos, se muito, tivemos algum controle por segundos. A coisas apenas acontecem.
Não sei dizer quais foram as primeiras palavras da mulher. Balbuciei um buenas tardes como quem preferia nada dizer e tentei prestar atenção no que dizia. Devia ser cigana, ou atriz, ou ladra. Ou poderia ser uma alucinação. Não, não naquela hora. Por insistência e alguma outra razão que não pude reconhecer, a segui. Queria me levar a uma casa com belas mulheres, bom preço. Explico que estava sem dinheiro, mas me convenceu a conhecer o tal lugar. Deixamos a rua. Penso e comprovo que, ao ganhar a distância de uma quadra, é possível pisar em outro mundo.
Lugares podem ser ermos para alguns e chamados de lar por outros. Lugares podem ter cores familiares para muitos e tons desprezíveis para tantos. O fato é que eu não pertencia àquele lugar, o fato é que nem o reconhecia como um lugar. Foi como se o amargo da minha boca tivesse se tornado tijolo, cimento e tinta descascada. Chego na casa; tons vermelhos, sofás de couros argentinos que há pouco estavam na calle Florida. A cigana me entrega, como se fosse eu uma mercadoria brasileira, e some como surgiu. Talvez em busca de outro eu, aquele que ficou a contemplar as coisas para olhar dentro de si mesmo.
Seis mãos pelo meu corpo, assim que me sento. Tento repetir que não tenho dinheiro, mas os ouvidos não. As línguas não. As mãos. Meu corpo. O calor. Meu corpo não. Fechei os olhos, ousei usar meu tato. As mãos...
Mulheres com batons escuros e hálito de empanadas. Novinhas de meia-idade e idosas de quatorze anos. Precisei de um esforço para tirá-las de cima de mim. Em algum momento perceberam que, de fato, não havia mesmo dinheiro em meu bolso. É nessas horas que o espanhol não faz sentido algum – as ofensas ditas em alto e mau som foram rápidas, repetidas e rasteiras. Tento explicar que voltaria com dinheiro, pois estava apenas a conhecer. A exaltação das três e a minha ali estavam a graus Celsius de um céu sem nuvens, num impasse acre, nada doce. No peito, coração em tango de oito tempos, em clave de sol, com base techno e remix de Olodum-dum-dum-dum-dum-dum. Disparo para a porta, sem olhar para trás. Corro. Tremi o asfalto com o vibrar das minhas pernas. Calle Florida. Não me disse mais nada.
***
Esta é uma obra de ficção, baseada em fatos reais. Homenagem a um amigo que passa temporada em Buenos Aires
Escrito por Robinson Machado às 18h06
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