Promessas de ano novo
Testa apoiada no dorso da mão e ela na rótula. Aquele peso do ar nos ombros e o vácuo estomacal invadido pela angústia. Aquele inexplicável ódio, quase físico, que toma a epiderme dos intimamente sinceros.
Ora, a arte pressupõe o outro e vice-e-versa; como sair ileso, como buscar somente a estética e trancar a expressão entre as costelas? A pura expressão: aquela que não explica, que não se explica, que não se aplica. Abstrata.
Certo, outro pressuposto, técnica na mente no corpo, ok: façamos... Não, não. Nada é tão simples. Outro são outros. Como nós cegos de uma rede embrulhada, as escolhas sobre quem nos entregamos e pertencemos nos encerram em impotência pelo existir alheio. A reação primária, não infantil, contra ser preterido sufoca a máscara da amabilidade e relembra que sou um animal político por que não consigo me desvencilhar da sociedade. Sorrio a esmo e faço rir por nada me restar a fazer.
O que me importaria rotineiramente, se pudesse não suprimir isso, seria uma tela em branco, as tintas, os livros e a interação restrita a quem me soma a reflexão e me abraça o ombro pra olhar ao longe com íntima sinceridade. Assim, da arte e para a arte, meu traço suplantaria o ódio, aprisionaria no eterno a pura expressão e abstrairia da barbárie urbana a plenitude de uma convivência atemporal e alheia ao caos-pitalismo.
O cansaço de fingir que tudo anda bem, obrigado, e você, como vai, que bom, vamos nos ver, é maior do que é possível tolerar sem explodir. No entanto, melhor que lastimar, isso pode ser objeto útil para a criação, a conceituação. O olhar pelos outros lados, através, por cima e por baixo. A observação participante não pode parar aí. Penso no que devolver a um mundo que não me deve nada, mas não me aceita, por eu não me importar totalmente com o que é aceito pela média.
Consola estar perto de gente adorável. É um elenco mais preocupado com a coxia e sua descontração, claro, o que já é alguma coisa. Quanto a um equilíbrio do intelectualismo e do niilismo bem-humorado, aceito bem, com ressalvas para os dois lados. Mas a balança anda injusta; estou perto demais de quem não escolhi e de quem torna minha arte “bonita” ou avaliada como “gostei mais daquela outra”. E minha arte está perto demais de mim mesmo e do meu faz-de-conta.
Hoje a palavra realizar, no sentido pleno de tornar real, é fazer com que minha arte confunda, crie repulsa, dúvidas, ou sublime também. Ódio digital, fotografia visceral e reflexão a óleo. É por aí.
O que desejo para logo é ser o que sou, que está escondido, mesmo que isso mostre defeitos colaterais. Assim, não serei capaz de me decepcionar levianamente, de cobrar algo que não é meu e de produzir o que quero vender, não o que querem comprar. A ira manifestada inconvenientemente nos momentos de paz ficará restrita à arte e tudo o que ela não é, será e nunca foi. Algo para qualquer um.
Esfrego os olhos, olho ao redor e vejo o que saiu de mim pelas mãos e não me arrependo. Mesmo cercado pela convergência do acaso. Não renego a piada de ser jornalista e isso, de alguma forma, ser motivo de orgulho – algo característico da pseudo profissão. Até mesmo para as convenções sociais, é ridículo ser obrigado a atuar com tantas condições humilhantes em uma revista ou jornal e ser remunerado a um décimo do tamanho do tal orgulho. Já que é para fazer parte do jogo, que seja com mais recursos. Por isso escolhi ser um comunicador e não me subjuguei a começar por baixo sendo um repórter de merda sustentado pelos pais.
Melhor ser um favelado esforçado que um burguês iludido. Minha arte não é profissão, mas estudar e praticar por alguns anos me dá forças para seguir em frente, ciente de que não sou apenas um especialista em generalidades, ou focado em qualquer merda que desprezo, como esporte, negócios, moda, franquias ou qualquer outra farsa disfarçada de “editoria”. No entanto, já provei ser capaz, o que me basta. O trabalho é trabalho e não passa disso; jamais será um estilo de vida, por mais que me esforce para fazer a diferença no cotidiano.
Talvez não me isole; talvez não mude nada. Mas a cabeça fervilhando vai ficar à espreita por esta independência social. Uma lacuna qualquer de solidão por dia será aproveitada e revertida. Fingimento em horário comercial é conveniente enquanto armo minha redenção.
Não vou me importar mais em mostrar a profundidade de algo. Principalmente da que vem de mim – ame-me ou deixe-me. E assim sempre é. Contanto que exista respeito ou sentimentos extremos, amor ou ódio: seja lá qual for, contribui para minha força de vontade em me manter afastado.
Como artista, e não como jornalista, tenho o pleno direito de não ter razão, de não me justificar, de não ter que argumentar minhas reações. Nunca soube outra forma de lidar com as coisas que não fosse pelo extremo sentimento – mesmo que discreto, mesmo que explosivo. Se faz bem ou mal, não importa. Minha ética do marceneiro é calcada na expressão. E ponto. Meus valores buscam somente romper a convenção e convencer de que este mundo é uma merda e ninguém está impune. Agora, enumere meus defeitos e saiba que minha qualidades são todas falsas. Jamais me importei de verdade.
Escrito por Robinson Machado às 14h23
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