Ver o peso*
* Baseado em fatos reais.
"Minha cara, você vai cobrir um enterro. Os detalhes são os seguintes". A partir das duas frases iniciais, imaginou se algum ilustre da cidade havia morrido e se condenou por ser repórter e não saber antes de tal notícia. Ao se interar, não pôde segurar o riso, nem a certeza da boa história que apuraria. Ela deixou o Amazônia Jornal com uma testa franzida de curiosidade, seu bloco e uma bic. Aconteceu há quatro anos.
A mulher mais gorda da região, que devia pesar mais de duzentos quilos, era velada sentada em uma maca entre velas de sete dias. Morrera à frente da TV, naquela mesma posição que estava encerrada há dois anos. Lembrava a imagem mítica de Buda.
O insuportável calor do norte do país não deixou o cadáver esfriar nos dois dias que antecederam o enterro organizado por um engenheiro civil. Ela ainda suava e não se sabia se era a flatulência ou o corpo já começava a se decompor.
Da família, só a filha. Curiosos e autoridades se postaram suados ao redor dela tentando manter as conversas normais de um velório padrão. Café, piadas e comentários de todos os tipos, como o campeonato de futebol local também era assunto. Tentavam ignorar o elefante branco naquela sala improvisada no Instituto Médico Legal – que é chamado de IML para não parecer uma fundação criada pelos Doutores da Alegria.
Depois de morta, para retirar o corpo da casa foi preciso quebrar uma parede a marretadas. O corpo de bombeiros foi mobilizado para tal feito, que chamou a atenção dos vizinhos, dos vizinhos de outras quadras e dos municípios vizinhos. Saiu da casa coberta por um lençol king size que, pelo que viu a repórter, estava molhado. Não soube apurar o porquê. Foi um circo; foi como se tivessem abatido o filhote de um triceratops e fossem levá-lo para análise científica. Foi uma loucura.
Foi quase impossível levar o cadáver na ambulância. A operação toda durou algumas horas, até anoitecer. O velório com a defunta sentada, de cabeça baixa e mãos nos joelhos, onde de tanta carne quase não se viam dedos, permaneceu por mais tempo que o ideal. Isso ocorreu por conta da busca por uma resolução para detalhes da cerimônia de despedida: o macro-sepulcro, o big-caixão para um corpo em éle e seis mega-amigos – halterofilistas, se possível.
O trator já começara a trabalhar lá no terreno que serviria para três mortos quando resolveram usar uma caixa de grandes proporções para o descanso eterno da sedentária. Improvisaram tinta e verniz para cobrir as sinalizações em vermelho de "frágil" e "este lado para cima" da embalagem e revestiram com sobras de tecido doadas por costureiras amadoras da região. Tiraram tanta terra que vale dizer que o jazigo se tornou um verdadeiro vale.
O cortejo seguiu com a presença de centenas de pessoas, que iniciaram ali mesmo uma campanha contra a obesidade e decidiram começar juntas um regime e fazer exercícios. Alguns botons condenando alimentos gordurosos foram vistos e não se sabe quem produziu. Ameaçaram apedrejar um dos McDonalds da cidade e, por cautela, foi fechado durante o cortejo. No cemitério, algumas pessoas fotografavam a cova e o guindaste, que estava posicionado atrás de uma quase colina de terra para erguer e colocar naquela cratera o inusitado baú.
A falecida contava com os cuidados de sua filha, que dividia as horas entre o trabalho na recepção de um movimentado motel popular e o fornecimento de comida e medicamentos para a mãe imóvel. Conhecia dela cada dobra, por conta dos banhos, do cuidado com as escaras. Apesar de conhecer pelo nome, sobrenome e RG a maior parte dos curiosos que tiraram o dia para morbidamente ver o corpo, ninguém a cumprimentou.
Todos começaram a se preocupar com o fato de que ela conhecia muitos segredos e vivia por condição no anonimato e nos bastidores da vida sexual promiscua da cidade. Os gays pais de família, os adolescentes, os pedófilos, os sadomasoquistas, os adúlteros e os solitários surpreenderam-se ao se deparar com a recepcionista. Mal sabiam ainda que ela podia ouvir o que se passava nos quartos, noite após noite. Conversas e desabafos, revelações e lamúrias, eram exaustivamente repetidos aos ouvidos da moça. Sabia o perfil de cada um e suas informações. Tinha um repertório que daria base para qualquer chantagem. No entanto, manteve-se sempre discreta, calada. Mal conheciam sua voz.
E ninguém a conhecia antes do fato, ou mesmo sabia que tinha uma mãe naquelas condições. Os pêsames de todos não a deixavam parar para refletir e quem sabe sentir algum alívio por ter se livrado de tanta responsabilidade. Estaria livre para fazer outra coisa além do trabalho, quem sabe sexo, que apesar de sua profissão, nunca praticou por conta do terrível medo que sentia de uma gravidez e conseqüente obesidade temporária poderia gerar. Não suportava a hipótese de ser gorda como a mãe e acabar a vida em um show tão bizarro como aquele. Por isso, comia pouco; procurava literalmente correr do trabalho para casa, de casa para o trabalho.
Durante os dez anos dedicados a recepcionar o motel, criou o hábito de contar absolutamente tudo o que ouvia à mãe. Dez anos antes, a senhora não tinha mais que cinqüenta quilos e trabalhava normalmente em uma oficina de costura. Produzia vestidos por encomenda de lojas típicas da região, para vender a turistas interessados na cultura local. No começo, a moça se sentia constrangida em contar detalhes tão sórdidos. No entanto, começou a notar que o interesse de sua mãe era enorme, como se acompanhasse uma telenovela. Achou por bem manter o costume, já que a pobre não se ocupava mesmo de muitas outras coisas além da overlock.
Não se sabe quando a recepcionista notou que aquilo tinha se tornado um vício da mãe, que, aos poucos, engordava a cada dia. Tentou fazer compras mais saudáveis no supermercado, sugerir dietas, incitar a mulher a caminhar diariamente. Mas nada adiantou. Passou o tempo e só lhe restou cuidar da mãe e contar suas histórias, que envolviam a todos da cidade. Ficara enormemente gorda.
Num rompante de lamentações, a moça decidiu contratar uma enfermeira e se afastar da mãe. A mulher, vítima de obesidade mórbida, morreu três dias depois a decisão da filha de não mais alimentá-la de vida alheia.
A repórter decidiu não incluir estas informações na reportagem, publicada com fotografia no dia seguinte em meia página do jornal, sem qualquer opinião ou bastidor da morte que emagreceu a cidade.
***
Agradecimento: Vanessa Hassegawa, que escreve o www.chegateamim.blogspot.com
Escrito por Robinson Machado às 18h43
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Respeitável público
— Queria que esse povo todo visse a intensidade que as coisas podem ter.
— Essas bobagens de novo; esqueça os outros.
— Olha ali, dá pra tirar tanta coisa do que não é óbvio...
— Sim, muita coisa a ser pensada, resolvida. Mas a questão é, se todo mundo fosse como você, teria coragem de pintar isso aí?
— É...
— A gente é alguma coisa por causa das referências. Que elas sejam piores mesmo e que pensem que são mais do que são. To por aqui disso, mas é engraçado demais ver a mediocridade em pleno exercício. Sei lá, vira pro lado e pimba!, tem algum idiota sacralizando um escritório como se fosse a nova Ágora.
— Escritório. É como se o circo tivesse sido resumido a salinhas ar-condiconadas.
— Condicionadas ao não-intenso. Um dia vou metralhar essa porra toda. Só caco de vidro, papel e merda pelas paredes.
— É, isso é intenso. Mas faria algo além.
— O que?
— Pintaria tudo isso aqui de vermelho numa madrugada qualquer.
Escrito por Robinson Machado às 12h00
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Present Perfect
O céu está desabando cinza ali fora, mas há um quê de seco por aqui. O melhor inferno astral da minha vida vem carregado de memórias cada vez mais vagas. Opacas, elas insistem em saltar à minha frente, enquanto me preparo para reencarnar como artista plástico.
Os erros passados só não se apagam por conta da lembrança de quem as viveu comigo. E é por isso que adoraria poder ser esquecido e quando me vissem por aí, pelas artes, pelos textos, pelos esbarrões, que fosse eu notícia. Um inédito, um experiente sem histórico. Seria bárbaro.
Seria pleno; de só fabricar em mentes outras outro cara, daqueles de lembrar sorrindo, de querer rever. Revisto tudo o que deixei de bom, sabendo do deleite do deletar que vem de quem prefere não reconhecer. Isso é legítimo e me fere, mas me resigno. Há coisas que independem por si mesmas. Quantas gotas já foram pranto? Quantas gotas já foram chuva?
Por mais que não pareça, por mais que não me pereça como antes, isso tudo representa o olhar pra frente. Visto um terno de placentalgodão.
A empáfia crônica me deixou só de quem não queria; a depressão me deixou só de quem prezava com ingênua idolatria. Não há como repetir isso. E não há como reparar, mas, surpreendo-me, não vejo problema se houvesse meio. Começo e fim a gente que cria se não dar valor para o durante das coisas. E é isso, meu caminho hoje é melhor do que eu poderia prever. De onde vim, projeção vinha embalada na forma de narco-sonho impossível. O que passou, passou da hora de esquecer. Cimento entre cada tijolo empilhado.
Ah, o futuro da garoa é azul.

Foto: Robinson Machado; 2008
Present Tense
(Pearl Jam)
Do you see the way that tree bends?
Does it inspire?
Leaning out to catch the suns rays
A lesson to re-apply
Are you getting something out of this
All encompassing trip?
You can spend your time alone
Redigesting past regrets…
Or you can come to terms and realize
You're the only one who can't forgive yourself
Makes much more sense
To live in the present tense
Have you ideas on how this life ends?
Check your hands and study the lines
Have you ever believed that the road ahead
Ascends off into the light?
Seems that needlessly it's getting harder
To find an approach and a way to live
Are we getting something out of this
All encompassing trip?
You can spend your time alone
Redigesting past regrets
Or you can come to terms and realize
You're the only one who cannot forgive yourself
Make much more sense
To live in the present tense
Escrito por Robinson Machado às 13h17
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