Via luzes
O Natal tem o mesmo significado que tem para todo mundo e poucos admitem: é tempo apenas de trocar presentes e criar um clima falso de relações humanas, a partir de rituais enfadonhos. O cenário disso tudo é feito de uma estética menos religiosa do que pirotécnica, europeizada, capitalista e pouco adequada à realidade histórica da celebração.
Dezembro desponta e as decorações que remetem a doendes escravos e um velho de vermelho que mais parece um aposentado filantropo pervertido dominam as ruas, as praças, as emissoras de TV e as casas. Obviamente, todo o simbolismo é motivado para acelerar as compras, todo o simbolismo vira approach de propaganda, de pretextos pessoais para falar de amizade, de visitar a família, de comer comidinhas diferentes de fim de ano. O circo está armado e com ele os amigos secretos, as roupas novas, os planos de onde passar o feriado, o trânsito composto por zumbis das compras, e as luzes. Ah, as luzes.
Banal e piegas, a iluminação natalina - em conjunto com neve artificial, árvores cheias de bolas brilhantes, roupas de inverno em bonecos grotescos, penduricalhos medievais e toda essa coisa sem sentido - é a força motriz de uma falsa alegria, tão evidente quanto esvaziada de coerência com nossa realidade diária. Os sorrisos e olhares das crianças para esta intervenção comercial são incentivados pela pura irresponsabilidade, enquanto o significado que a data deveria ter passa batido. Sob a benção dos piscas-piscas, mais uma geração de entorpecidos é criada, girando o motor de um sistema social superaquecido e predador do desenvolvimento intelectual e da formação de cidadãos menos alienados. Cidadãos que poderiam contribuir para a criação de um mundo melhor pelo simples exercício da consciência.
O valor gasto com decoração pelo setor privado, que chegam a mega-estruturas sem qualquer valor artístico ou estético, poderia ser revertido em doações de cestas básicas, da criação de um programa social para comunidades carentes, por exemplo.
No caso do setor público, é pior: se o Estado deve ser laico, como permitimos o financiamento de parte deste freak show?

Trata-se de uma ditadura velada, da falta de respeito à diversidade religiosa; ora, não há apenas cristãos no mundo. Da mesma maneira que as estratégias mercadológicas criadas por Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, são usadas até hoje pela publicidade, pelo imperialismo estadosunidense e todo o corporativismo mundial, os cristãos se apropriam disso tudo, ou não impedem a calamidade buscando dar o devido valor que eles deveriam atribuir a este contexto. Abriram as portas para o oportunismo de quem deseja lucrar com o que um dia foi uma celebração simbólica de uma das tantas religiões existentes, limitada a seu campo e com respeito às tradições criadas por eles mesmos e, principalmente, às outras que integram a belíssima diversidade humana.
Além disso, a cidade não fica mais bonita; as árvores amarradas de luz ficam cafonas; as fachadas das casas mostram como nossa arquitetura é ruim; os enfeites não têm qualquer identidade com a cultura brasileira; as guirlandas são toscas; os presépios são depressivos; os anúncios poluem; e as vitrines atraem nós, os idiotas. É tudo uma grande e visualmente feia mentira.
Uma mentira que não nos dá escolha. Somos obrigados a fazer parte disso. Aprendemos desde cedo que temos que ter o trambolho de uma árvore na sala, que temos que colocar presentes debaixo dela para trocar antes ou depois de uma ceia que inclui castanhas, panetones e algum animal morto que não temos o hábito de comer ao longo do ano. Somos obrigados a ver as luzinhas em todo lugar, de uma recepção de dentista ao apartamento de um casal de amigos, do horizonte cinza a um enorme edifício. É difícil sair da mediocridade se somos cooptados pelo padrão, principalmente por um tipo de nazi-facismo colorido e brilhante - uma ferramenta que seduz quem não pára pra pensar em como somos limitados em não identificar tamanha afronta à nossa inteligência e individualidade.
Escrito por Robinson Machado às 12h05
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O pior amigo
Tive meu primeiro amigo aos seis anos de idade. Para além de todas as infinitas tardes de brinquedos, bolas, jogos, correrias e conhecimento ainda limitado de um mundo que não nos queria, Ricardo marca minha vida como a primeira, a principal e a pior referência. Antes da minha peleja no melhor estilo conhece-te a ti mesmo, conheci bem esse garoto negro que aos oito anos já tinha doze graus de miopia, e estou certo de que, se hoje ele tem traumas, parte deles existem por minha causa.
Mais ingênuo do que uma criança pode ser, desde sempre até a adolescência, foi o alvo do que havia de pior em mim, do pior da crueldade nata que uma criança tem. Era Ricardo o meu oposto. Ele era diferente. Isso me bastava par maltratá-lo, agredi-lo e subjugá-lo à minha diversão por meio de deboches, acintes e humilhações. Ele nunca estava certo diante da minha presença, ele nunca sabia algo que eu não soubesse mais detalhes, ele nunca teve uma opinião que superasse a minha. E ainda assim, ele me tolerava, pois não tinha mais ninguém. Na escola, no bairro, Ricardo era o típico garoto bobo. Apanhava dos garotos, era ignorado pelas meninas, era o coitado para os vizinhos. Era meu sparring pessoal.
Meu melhor amigo era o mais dispensável. Se havia uma outra criança por perto, disponível, ou um primo, ou qualquer outra coisa à mão, o ignorava, o difamava. Ele não era o Robinson, o exaltado pequeno gênio: isso me bastava para justificar tudo.
Enquanto tinha dificuldades na escola, chegando a ser reprovado na primeira série, aprendi a ler e escrever aos quatro anos. Enquanto eu jogava futebol ou qualquer esporte com bola com certa desenvoltura, ele era o último a ser escolhido para qualquer time. Eu tinha mais regras nos jogos com os amigos, ele era o café com leite. Ele perdia suas bolinhas de gude para minha coleção. Ele apanhava nas brincadeiras de mão. Perdia na corrida, na rapidez de subir nos telhados, na agilidade. No pega-pega com a turma da rua, estava sempre com ele.
Ele morava num sobrado. Minha casa era um barraco. Ele sempre tinha os melhores brinquedos, até eletrônicos; fiquei com minha imaginação. Ele tinha pai e mãe presente. Minha mãe viúva trabalhava o dia todo. Ele viajava, ia muito ao Guarujá; eu divagava. Ele não sabia empinar pipa. Não me importava, mas sabia cortar e aparar. Suas roupas eram mais caras. Seu pai tinha um sítio em São Roque e me levou até lá duas vezes. Lá, ele dormiu com conforto; tive uma crise de bronquite e estraguei a viagem toda.
Apaixonado por automóveis desde sempre, a única coisa que lhe interessava no mundo, ele só tinha o sonho de fazer dezoito e poder dirigir. Sempre foi a única coisa que entendeu bem. Sabia falar de motores, de marcas, de potências, de aparatos de som. Não conhecia música, não via filmes, não tinha amigos. E isso bastou para que passasse a não me interessar, até hoje, em não dirigir, em ter um carro. Diferente, claro, da maior parte dos garotos de bairros carentes como o que morei, que trabalham anos somente para conseguir comprar um veículo, nada mais.

Meu amigo não era dado aos livros, aos cadernos. Por favor à sua mãe, que pediu à minha, e por elevar meu ego, passei muito tempo dando aulas ao Ricardo. Meu prazer íntimo era deixar claro que sabia e ele não. Não há livro que folheie hoje que não me faça lembrar disso. E isso bastou para que nunca abandonasse o hábito; o que me fez chegar à faculdade, entre outras coisas.
Era religioso, acreditava naquilo. Foi coroinha na igreja do bairro e ganhou o apelido de Aleluia; só era chamado assim na escola. Nunca o defendi, ria dele todos os dias. Nessa época, as brincadeiras de criança já tinham dado espaço a horas de bate-papo, no melhor estilo tic-tac - o tempo vai passando e a gente aqui sentado no banquinho conversando. No entanto, superada a infância, lá pelos treze anos, minha maior diversão era descobrir formas de constranger o Ricardo com questões difíceis, com ofensas sutis que o faziam rir e com provocações que poderiam fazê-lo chorar.
Ricardo nunca lamentou. Ele nunca reclamou da vida, das coisas que não teve, das coisas que perdeu. Quando descobriu que o pai tinha uma amante na rua de baixo, se contentou com a explicação do velho de que um dia ele ia crescer e entender. Quando o excluía da minha vida para passeios bacanas, me esperava. Quando não apresentava gente interessante por vergonha, ele gostava depois de ouvir como eram, o que faziam. Ele foi o ouvinte das minhas primeiras experiências sexuais, das minhas vitórias e conquistas. Era como se ele fosse um blog, algo que geralmente serve para nos "ouvir" falando, por puro egocentrismo e falta de grana para o psicólogo.
Ele queria aprender a jogar vôlei comigo quando passei em testes de grandes clubes; queria acampar quando ingressei num grupo escoteiro. Mas ele não foi. Queria deixar de usar óculos, queria ter franja, queria ter namorada, queria poder ficar na rua até tarde. Mas ele não pôde.
Seria conveniente, seria uma superação, seria um aprendizado olhar para trás e me arrepender do que fiz. Mas esse olhar para o passado ignoraria as coisas que me fizeram agir assim pelo fácil sentimento da culpa, que não considera que somos como somos pelos encontros, ou esbarrões, que os outros nos dão.
Não questionei o mal que me fizeram ou o bem que não me deram, assim como ele. Hoje vejo como erro, mas não havia como saber, não havia ferramenta para quebrar a seqüência social de causa e efeito.
Passei para frente uma corrente torpe de relações humanas e insanas que todos estamos sujeitos, que todos estamos à mercê. Isso não justifica, mas explica essa humanidade cruel, que nos torna egoístas, que nos torna falsos altruístas, que nos torna gente comum. Que nos torna atores num ateliê e artistas plásticos num palco, que nos torna cineastas na hora de escrever e escritores na hora de assistir a um filme, que nos torna músicos numa poesia e poetas quando é preciso silêncio.
Poderia no próximo fim de semana tocar a campainha da mesma casa que ele mora desde que nasceu, dar o primeiro abraço que daríamos em toda a nossa vida e lhe pedir desculpas, mesmo sabendo que ninguém jamais bateria à minha porta com a mesma intenção reparadora.
Poderia comentar, com minha vã filosofia, suas vitórias, a frota de vans escolares que ele montou sozinho. Falar sobre como ficou bem de lentes de contato; comentar como hoje todos daquele bairro, menos carente e feio, o conhece pelo nome e não passam pela rua sem cumprimentá-lo com gestos largos e sorrisos sinceros. Isso consertaria alguma coisa? Isso redimiria as mazelas do mundo que ele descobriu em sua vida pelas minhas mãos? Ele se dá conta de tudo isso ou prefere fingir que sempre fui seu amigo, que sinto saudade dele ou daquela favela que crescemos?
O fato é que nem sei ao certo se hoje ainda sou alguma referência, se tive alguma importância quanto ao que ele é, ou queria ser. Sei que, sim, o garoto que atormentei e tanto tratei mal fortalece as atitudes condenáveis que fazem parte da minha rotina, da minha humanidade desprezível. Meu fantasma, minha antítese e meu espelho.
Quem era o coitado, afinal? Baseando-me nele, me dedicava a superá-lo, me dedicava a ser melhor, a mostrar que era melhor, o tempo todo. A preocupação era somente minha, pois precisava superar seus brinquedos caros, sua bela casa, o amor incondicional dos pais, irmã e parentes. Precisava superar, principalmente, sua falta de preocupação com tudo, sua displicência nos estudos, que não o impediam de dormir. Precisa superar sua falta de preocupação com o futuro, que jamais geraria uma frustração, sua falta de vontade de ser diferente, de ser único.
Ele queria ser mais um e via nisso a sua felicidade, ora, a dádiva da mente vazia e o coração aberto. O garoto coitado era eu, que, desde cedo, já sabia o que queria e o que não queria. Que já sabia sentir ódio, já sabia que era pobre e não tinha a menor perspectiva de ser o que sonhava, um escritor e desenhista. O garoto coitado era eu que já pensava em fugir de casa, que já tinha planos de fazer um atentado terrorista, que já tinha roubado, bebido, fumado, agredido... O garoto coitado era eu, que concluiu a infância diagnosticado como depressivo, narcisista e intolerante.
O Ricardo me mostra hoje, e nem sabe, que as melhores escolhas são aquelas que não podem fazer mal a ninguém. Mostrou que somos o que somos não por conta do que nos lapidaram, mas por conta do que tentamos lapidar nos outros, numa cadeia detestável chamada sociedade, que nos impele a tentar tudo sem medir conseqüências, pensando somente em nós mesmos.
Meu melhor amigo merece ter a vida que deseja. Não deve ser o direito de ninguém classificar, julgar ou tentar mudar alguém que fez a sua escolha. Todos têm os seus motivos. Cada vida é, de fato, única e valiosa.
Espero que ele se lembre de mim pelos momentos que fui alguém que ele esperava que eu fosse.
Escrito por Robinson Machado às 18h43
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