Considerações acerca de você
Você já se perguntou o porquê de se sujeitar às armadilhas do seu trabalho. Já desabafou sobre a incompetência de seus pares colando os cotovelos na mesa suja de um bar com mesas na calçada. Você já jurou que mandaria um cliente tomar no cu, tomar um Valium, já jurou tomar um porre em nome do desalento, já cogitou mudar de emprego em busca de algo que te faça feliz a menos custo, dinheiro e respeito. Já sentiu o frio na barriga de uma demissão esperada e ainda assim terrível, desejada e ainda assim amarga. Amargou o fundo de um café frio e conteve a ânsia causada pela última tragada de um cigarro aceso à força, como desculpa para os minutos de reflexo-decepção. Você já desejou ser outro que queria ser outro que queria ser você. Desejou matar, matar a fome, matar o tempo, matar o tédio. Maltratar o vagabundo malfeitor, bem dizer o mal feitor, amaldiçoar o dito santo, o dito popular, o dito cujo. Você já se questionou à exaustão e deixou de responder ao bom dia, à confirmação de recebimento de e-mail, ao convite, ao chamado, ao chamado amor. Você já abandonou seus amigos e se aproximou dos colegas. Você deixou de ir pra ficar, você ficou para não voltar, você almejou sem querer e conquistou o que não era para você. Almoçou dinheiro e vomitou sozinho. Você já se vestiu de adulto e chorou que nem criança. Você já se vestiu de terno e rasgou os laços de ternura. Você já tentou correr e acabou sentado. Você já tentou se levantar e caiu nas graças da tragédia. O medo. A ira. A preguiça. A ilusão. Tudo isso te pertence e não se vai.
Escrito por Robinson Machado às 15h38
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