Colidido
Dividi meu quarto em dois, e já faz tempo, para torná-lo meio ateliê, meio improvisado. Meio cheio, meio vazio. No cômodo, durmo de um lado e sonho do outro. Tintas, pincéis, recortes, telas e um cavalete que divide espaço com um PC e um eMac, meus livros e uma papelada sem cabimento do meu eu jurídico. O vento que vem da varanda vez ou outra espalha tudo ao chão e caminho em cima do acaso, como sempre. É ali que mal acompanhado de mim mesmo produzo arte. Digital e analógica. Aquilo é o meu útero. Em gestação estão as séries Asfixia – óleo sobre tela, minha primeira experiência minimalista – e a continuidade da série Poptic, minha criação digital, que em alguns dias estará em um coletivo no Mube e uma individual na Eca. Ah, e em algumas semanas em uma mostra de arte no Mato Grosso. Isso tudo nasceu do isolamento, da pincelada secreta, da solidão. Impensável imaginar alguém assistindo a criação, a eventual frustração de um erro de desenho, de uma cor mal-misturada, de instantes eternos frente à tela em branco sem a coragem do primeiro traço. Impensável até então. A Cia Teatro da Colysão me convidou para participar do espetáculo Cabaré da Fronteira, em cartaz em São Paulo. No último sábado, pintei um quadro em público, pela primeira vez. Uma obra nasceu no palco, com pinceladas mais rápidas do que estou habituado e com uma platéia acompanhando cada movimento. Peito quicando nos instantes que antecederam a última campainha, a paleta de cores prontas, o cavalete armado, a tela lá, branca, quase espelhando minha expressão de falsa segurança. O elenco em aquecimento, alguma conversa para combinar minhas eventuais intervenções na apresentação. Uma música antes do início. Ouso tocar percussão para acompanhá-los: sento no cajon, uma caixa batucável de som de primeira, que foi criado no Peru, país que conheci em janeiro. E foi decidido que tocaria em uma música durante a peça. O musical começa lá fora, com todo o público. Sozinho no palco, risco a carvão o esboço. Entra o elenco, o público se acomoda. Sou apresentado e nem me reconheço. A primeira música, a segunda. Tango e samba. Vôo dentro da tela e a preencho por instinto. Momentos de surdez, de devaneios. O encontro da minha arte com a de um grupo maravilhoso como o Colysão me mastigou por dentro e fui cuspido na realidade por mim antes impensada. A experiência compartilhada da multi-arte mandou passear minha monoangústia. Música, teatro, arte visual e amizade ali, na ponta dos meus dedos e na secura da minha garganta. O quadro pronto já nem fazia mais sentido. Valeu o processo, meus dedos inchados pela vontade das batidas da percussão. Compasso. A cortina se fechou em cima da minha pele suja de tinta e da alma limpa de alívio.
Escrito por Robinson Machado às 13h56
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|