Entrevista: sindicalismo nas artes plásticas
Petrobrás mandou bem. Como agora é tendência, publico abaixo entrevista sobre artes plásticas, sindicatos para as artes e afins. Dessa vez, sou quem responde, não quem pergunta. Por que você não faz parte de nenhum sindicato ou associação? Não integro entidade alguma relacionada à arte por que não fazia idéia de quem são ou como poderiam ser úteis ao meu trabalho. Mesmo participando de editais públicos de fomento cultural e exposições diversas, nunca fui abordado por uma instituição. Claro que já procurei saber alguma coisa pela Internet, mas sindicatos que tem a proposta de representar a classe dos artistas plásticos não poderiam manter um site de visual tão ruim e com atualizações com atrasos de dois anos. Quando um sindicato ou associação é relevante, seja qual área for, eles costumam buscar a adesão de sua classe, nas escolas, nas exposições... Pretende fazer parte de algum no futuro? Não planejo fazer parte de qualquer instituição que deixe de promover o debate para tomar suas decisões em nome de um coletivo. Considero a arte uma atividade tão subjetiva que não acredito em uma regulamentação profissional de classe criada com alguma base democrática. Esta discussão já começa pelas questões sobre o que é a arte e quem é considerado artista. Não quero me vincular a uma instituição que me considere artista por produzir e expor quadros ou esculturas, mas não integre um intervencionista urbano que faz coisas relevantes. Acha que os esforços feitos por essas entidades são válidos na defesa dos direitos dos artistas? Há diversas entidades que defendem muito bem os direitos de classes como a dos músicos e dos atores. No caso das artes plásticas, artes visuais e afins, tenho dúvidas se há realmente qualquer esforço. Estive recentemente em um debate promovido pela Folha de S.Paulo com o Ministro da Cultura sobre Lei Rouanet e não notei qualquer participação de um sindicato de artes plásticas. Isso seria o mínimo do esforço. E quando digo esforço, não é a produção de manifestos ou dar dicas de cursos e concursos: é a defesa, por exemplo, de que haja uma mudança nos projetos públicos de incentivo à cultura para viabilizar a profissão do artista plástico. Enquanto um filme comercial ruim consegue milhões de reais em incentivo viabilizado pelo governo, uma mostra de artes visuais mal consegue financiamento para pagar seus custos. Sendo esta uma profissão não regulamentada, que não dá aos artistas direitos trabalhistas como aposentadoria, acha que a melhor maneira de conquistar tais direitos é através de organizações sindicais? Definitivamente, organizações sindicais não são capazes de alterar a difícil realidade do artista plástico no Brasil. O que aconteceria se os artistas plásticos entrassem em greve? Nada, seria uma grande piada. O movimento sindical foi vital em diversos contextos históricos no mundo todo para defender os direitos de muita gente. Entendo que um sindicato é uma ferramenta popular, um recurso legítimo usado pelo povo. Trabalhadores explorados precisaram se reunir para reivindicar direitos: organizaram-se para promover melhores condições e distribuição de rende mais justa. Se um sindicato nasceu como resultado de uma luta de classes, não há sentido algum existir uma instituição dessas para a classe dos artistas plásticos por uma simples razão – os artistas plásticos sempre estiveram intimamente atrelados à elite dominante, seja o clero de antigamente ou o meio empresarial de hoje. Nesse sentido, culturalmente o artista plástico faz pose de dominador, enquanto na verdade é o pior dos dominados, o servil. O artista então dispensa carteira assinada e aposentadoria para não incomodar quem pode comprar sua obra, feita para a própria elite, potencialmente criando um círculo vicioso de produção de lixo comercial. Acha que regulametar a profissão seria complicado pelo fato de ter de classificar quem é artista ou não? Infelizmente, quem determina o que é arte e quem são os artistas é a elite, que hoje é representada pela imprensa, pelas galerias e pelo conceito conhecido como ‘formadores de opinião’, ou seja, uma balela criada pelo meio empresarial para justificar seus preconceitos quanto a públicos consumidores. Esta lógica de mercado é restritiva e deixa de fora um enorme contingente de linguagens e manifestações artísticas importantes. Este seria o foco de uma classificação de mercado, que daria base a uma regulamentação alinhada com um programa de incentivo público-privado. E não dá para esquecer que também é preciso separar o produtor de artesanato, o desenhista na praça pública ou a dona de casa que gosta de pintar telas de flores e vender por aí. Uma regulamentação específica e benéfica para eles também é necessária. Acha que pelo grupo artístico ser tão heterogêneo, torna mais difícil se organizarem em busca de seus direitos? Se o artista plástico for considerado o indivíduo que busca se expressar de maneira inovadora por meio de recursos artísticos para representar ou debater sua realidade contemporânea, uma mobilização de classe poderia ser facilmente estabelecida. O que é heterogêneo é a linguagem, que pode ser a pintura, a manipulação digital, a fotografia, o grafite, a intervenção urbana, a performance, entre muitas outras. Acredito que os artistas plásticos precisam primeiramente refletir sobre o cenário de consagração artística. Depois, precisam promover a democratização de conceitos ligados à arte de maneira mais efetiva, por meio de educação.
Escrito por Robinson Machado às 09h30
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